Eu não temo a velhice . Temo a estagnação.

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Durante muitos anos, disseram às mulheres que o maior desafio da vida era envelhecer.

Como se o tempo fosse nosso inimigo.

Como se cada aniversário nos afastasse de quem poderíamos ser.

Nunca acreditei nisso.

Não temo envelhecer.

Temo a estagnação.

Porque o tempo transforma o corpo. Mas é a estagnação que endurece a vida.

Conheço mulheres de oitenta anos que continuam curiosas. Aprendem, perguntam, mudam de ideia, começam projetos, fazem amizades, descobrem novos interesses. Há uma vitalidade nelas que não depende da idade.

Também conheço mulheres muito mais jovens que já desistiram de si.

Continuam cumprindo seus papéis com competência. Trabalham, cuidam da família, resolvem problemas, atravessam os dias com eficiência.

Mas já não se surpreendem.

Já não sonham.

Já não experimentam.

Vivem como quem apenas administra a própria existência.

É um envelhecimento que não aparece primeiro no espelho.

Aparece quando deixamos de aprender.

Quando acreditamos que já somos quem seremos para sempre.

Quando repetimos os mesmos padrões, mesmo sabendo que eles nos fazem sofrer.

Quando confundimos estabilidade com imobilidade.

A medicina nos ensina muito sobre o envelhecimento do organismo. E esse conhecimento é indispensável.

Mas existe outra dimensão que merece a mesma atenção: a capacidade humana de continuar crescendo.

Crescer não significa viver em permanente inquietação.

Também não significa rejeitar quem fomos.

Significa preservar algo que nenhuma idade deveria nos tirar: a disposição para continuar nos tornando.

Ao longo da minha vida profissional, encontrei inúmeras mulheres que chegaram ao consultório dizendo que queriam aliviar um sintoma.

Ansiedade.

Insônia.

Cansaço.

Falta de desejo.

Mas, pouco a pouco, percebiam que o sofrimento não nascia apenas do corpo.

Nascia da distância entre a mulher que eram e a mulher que ainda poderiam ser.

Talvez seja por isso que algumas mudanças produzem tanto medo.

Elas nos obrigam a abandonar versões antigas de nós mesmas.

E crescer sempre exige pequenas despedidas.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos você tem.

Talvez seja esta: Em que momento da sua vida você parou de avançar?

E uma segunda pergunta, ainda mais importante:

O que, dentro de você, continua esperando para nascer?

Enquanto essa resposta existir, a vida continua chamando.

E talvez seja justamente isso que nos mantém verdadeiramente jovens.

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