Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa
Você já imaginou viver dependente de um pulmão de aço?
Essa foi a realidade de Martha Lillard, uma norte-americana que não teve a oportunidade de ser vacinada contra a poliomielite, como acontece com as crianças da atualidade. Ela contraiu a doença aos cinco anos de idade, dois anos antes de a vacina contra a pólio ser disponibilizada nos Estados Unidos, em 1955.

Martha faleceu em 26 de junho, aos 78 anos, tornando-se uma das últimas pessoas no mundo a utilizar um pulmão de aço. Permaneceu ligada ao equipamento por cerca de 70 anos, pois a poliomielite paralisou os músculos responsáveis pela sua respiração.
Com o passar das décadas, manter o aparelho em funcionamento tornou-se um desafio crescente. Encontrar profissionais capacitados para realizar os reparos e peças de reposição era cada vez mais difícil. Sua família vivia em constante apreensão, inclusive em relação ao fornecimento de energia elétrica, dependendo de geradores sempre que havia interrupções no serviço.
Martha morreu em decorrência de complicações após a COVID-19. Sua história nos transporta para um período em que a poliomielite vitimava centenas de milhares de crianças e em que não existiam os modernos recursos de ventilação mecânica disponíveis hoje.
Antes da vacinação em massa, a doença provocava mais de 350 mil casos por ano em todo o mundo. Em 1988, estimava-se que mais de mil crianças eram paralisadas diariamente pela poliomielite. Graças aos esforços da Organização Mundial da Saúde, de governos e de diversas instituições parceiras, a incidência global da doença caiu mais de 99%.
Atualmente, a poliomielite permanece endêmica apenas no Paquistão e no Afeganistão. Em 2018, foram registrados apenas 30 casos nesses dois países, resultado de um intenso esforço internacional para erradicar definitivamente a doença. No Brasil, o último caso foi registrado em 1989, e, em 1994, as Américas receberam a certificação de eliminação da poliomielite.
O chamado “pulmão de aço” era um grande cilindro metálico hermeticamente fechado, no qual o paciente permanecia deitado com o corpo completamente selado, deixando apenas a cabeça para fora. O equipamento funcionava por meio da alteração da pressão negativa no interior do cilindro, promovendo a expansão e a contração dos pulmões e reproduzindo, de forma mecânica, o processo natural da respiração.
Apesar da dependência do aparelho durante toda a vida, Martha manteve uma rotina admirável. Segundo seu marido, ela pintava, cozinhava e cuidava de seus cães. Apenas nos últimos anos, após contrair COVID-19 e desenvolver herpes-zóster, tornou-se totalmente dependente do pulmão de aço.
A trajetória de Martha é um poderoso lembrete do valor da ciência e da vacinação. Graças às vacinas, milhões de crianças foram poupadas de uma doença que roubava movimentos, sonhos e, muitas vezes, a própria vida. Que sua história inspire pais, profissionais de saúde e gestores públicos a manterem altas as coberturas vacinais, para que nenhuma criança volte a conhecer a poliomielite além das páginas dos livros de História. Afinal, toda criança merece apenas correr, brincar e viver plenamente a infância que Martha nunca pôde experimentar.