Um guia para quando você quer desistir
Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tríade Rosa
Há um poema que circula nas redes, compartilhado por mulheres em madrugadas de insônia, salvo em pastas secretas do celular, lido com lágrimas nos olhos. É um poema cósmico disfarçado de manual de instruções: “Instructions Before Visiting the Earth”, de James Mc Crane.
Quando o li pela primeira vez, não como psiquiatra, mas como mulher, senti aquele arrepio que só a verdade provoca. Pois o poema não nega o sofrimento; ele o recontextualiza. E há uma diferença abismal entre essas duas coisas.
Hoje, quero conversar com você sobre essas instruções, não como abstrações filosóficas, mas como boias de salvação para quando você estiver se afogando. Elas oferecem um mapa para navegar pela complexidade da existência, lembrando-nos de que a dor é parte da jornada, mas não o seu destino final.
1. “NÃO ENTRE EM PÂNICO”
Ou: O que fazer quando você acorda e não reconhece sua própria vida.
Ontem, recebi no consultório uma mulher que começou a sessão assim: “Dra., acordei e pensei: como cheguei aqui? Como isso é minha vida?”. Ela tinha 34 anos, casamento de 12 anos, dois filhos, uma carreira que construiu com suor. Naquele momento, tudo parecia irreal, estranho, como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Isso é desrealização, e é muito mais comum do que você imagina.
Mc Crane nos diz: “não entre em pânico. Sua condição é temporária”.A psiquiatria acrescenta: esse pânico que você sente é informação, não sentença. É seu sistema nervoso dizendo “algo mudou”. E ele está certo. A vida é mudança constante, e às vezes nosso corpo e mente levam tempo para acompanhar. Quando você nomeia o pânico, quando você diz “estou em pânico, e isso é normal, e isso é temporário”, você já começou a se acalmar. Pois o pânico alimenta-se do silêncio, da negação e da vergonha de estar com medo.
A instrução prática aqui: Na próxima vez que sentir aquele frio na espinha, aquela sensação de estar à deriva, faça isto:
Nomeie em voz alta: “Estou com medo. Estou desorientada. E isso é aceitável.”
Coloque uma mão no coração. Sinta seu próprio batimento
Respire: 4 tempos para dentro, 6 para fora. (Seu sistema nervoso parasimpático agradece.)
2. “VOCÊ FOI SELECIONADA”
Ou: Por que seu sofrimento não é punição, é oportunidade.
Há uma mulher que conheço, vou chamá-la de Marina, que aos 40 anos perdeu seu emprego, seu casamento desmoronou, e ela ficou sozinha com uma filha de 8 anos e uma dívida que parecia montanhas. No primeiro encontro, ela me disse: “Dra., o que fiz de errado? Por que Deus está me punindo assim?”. E eu respondi: “Marina, você não está sendo punida. Você está sendo testada. E há uma diferença crucia.”Mc Crane nos diz: você foi selecionada para esta encarnação humana. Não por acaso. Não como castigo. Como oportunidade.
Isso não significa que o sofrimento é bom, mas que é significativo. Significa que você tem a capacidade de transformá-lo em sabedoria, compaixão e uma força que você nem sabia que possuía.Marina, três anos depois, criou um projeto de ajuda para mulheres em situação de vulnerabilidade.
A queda não foi o ponto final, foi o ponto de virada.A instrução prática aqui:
Escreva isto num papel e cole no espelho: “Meu sofrimento não é acaso. Há algo que eu preciso aprender aqui. Qual é?”Não espere a resposta vir pronta. Ela virá em fragmentos, numa conversa, num livro, num momento de quietude.
3. “SUA ALMA PERMANECE SEGURA”
Ou: O refúgio que existe dentro de você, mesmo quando tudo desmorona.Recebi certa vez uma ligação de madrugada. Uma mulher que havia tentado se matar. Estava no hospital, medicada, mas consciente. “Dra., eu não quero estar aqui”, ela sussurrou. “Eu sei”, respondi. “Mas você está aqui. E isso importa.”
Mc Crane diz algo revolucionário: não importa o que aconteça ao seu corpo, ao seu ego, à sua vida, sua alma permanece intacta. Perfeitamente segura.Em termos psiquiátricos, isso significa: você não é seus pensamentos suicidas. Você não é sua depressão. Você não é sua ansiedade. Você é o observador desses fenômenos. Você é aquela parte que consegue dizer “estou tendo um pensamento de morte”, o que significa que há uma parte de você que não é esse pensamento. Essa mulher da madrugada, vou chamá-la de Sofia, levou meses para entender isso. Mas quando entendeu, ela começou a falar de seus pensamentos como se fossem visitantes indesejados, não como verdades imutáveis. “Meu pensamento suicida chegou de novo”, ela dizia. Não “eu sou suicida”. Essa pequena mudança linguística é terapêutica e libertadora.
A instrução prática aqui, quando um pensamento terrível chegar, diga: “Este é um pensamento que minha mente está tendo. Não é verdade. Não é permanente.
Procure aquela parte de você que observa o pensamento. Ela existe. Sempre existiu. Se os pensamentos forem muito escuros, procure ajuda profissional. Sua alma está segura, mas seu corpo precisa de cuidados.
4. “NADA É PERMANENTE”
Ou: O alívio paradoxal de saber que tudo passa.
Uma das minhas pacientes,Beatriz, passou por um luto devastador. Perdeu seu filho de 19 anos. Meses depois, em sessão, ela me disse algo que a surpreendeu: “Dra., a dor não diminuiu. Mas mudou. Alguns dias é aguda. Outros dias é uma tristeza morna. Nunca desaparece, mas… muda.”
Isso é a verdade do poema: nada é permanente. Nem a alegria. Nem o sofrimento.Quando você está em desespero, parece que aquilo é eterno. Que você vai carregar aquele peso para sempre. Mas a psiquiatria e a neurobiologia nos dizem: o cérebro é plástico. As sinapses mudam. Os neurotransmissores se reequilibram. O corpo cicatriza. Não significa que você esquecerá, mas que aprenderá a carregar. E há algo profundamente consolador nisso: se a dor não é permanente, então você não precisa ter medo dela. Porque ela vai passar.
A instrução prática aqui: Quando estiver em sofrimento agudo, diga: “Isto é temporário. Meu cérebro está em crise, mas ele se recupera. Já se recuperou antes”.
Crie um kit de crise: fotos de momentos felizes, uma música que te acalma, o número de alguém que você confia. Quando tudo parece permanente, use seu kit para lembrar que não é.
5. “APEGUE-SE LEVEMENTE”
Ou: Como amar sem ser destruída pela perda.Há um mito que as mulheres crescem acreditando: que amar significa entregar-se completamente. Que a verdadeira devoção é a morte em vida ao lado de alguém. Isso é uma mentira que destrói vidas.
Recebi uma mulher, Juliana, que havia perdido sua identidade dentro de um casamento. Ela não sabia mais o que gostava, o que queria, quem era. Havia se diluído completamente no outro. Quando o casamento terminou, ela não apenas perdeu um parceiro; perdeu a si mesma.
Mc Crane nos diz:”Apegue-se levemente, até a si mesma”. Isso é revolucionário. Porque significa: você pode amar profundamente e ainda ser você. Você pode estar em um relacionamento e ainda ter amigos, hobbies, sonhos, uma vida interior que é só sua. Significa que você não é propriedade de ninguém. Nem de um homem. Nem de seus filhos. Nem de sua carreira. Nem sequer de si mesma. Você é um ser em movimento. E o movimento requer espaço.
A instrução prática aqui: Identifique uma coisa que você abandonou por estar apegada a alguém ou a algo. Uma amiga. Um hobby. Um sonho.Comece pequeno . Uma ligação. Uma aula. Uma tarde só sua.
Observe como você se sente quando recupera um pedaço de si mesma. Porque é isso que é desapego, não é frieza. É amor a si mesma.
6. “SER UMA BOA VISITANTE”
Ou: A responsabilidade de estar aqui.
Há uma tendência em mulheres que sofrem muito: elas se tornam invisíveis. Recuam. Ocupam o mínimo de espaço.
Pedem desculpas por existir.
Mc Crane nos diz algo diferente: seja uma boa visitante. Ouça mais do que fala. Dê mais do que receba. Não faça bagunça. Mas aqui está a sutileza: ser uma boa visitante não significa ser invisível. Significa ser responsável.
Uma de minhas pacientes, Gabriela, estava tão focada em não “incomodar” ninguém que havia desaparecido. Ela tinha uma voz bonita, mas não cantava. Tinha ideias brilhantes, mas não as compartilhava. Tinha amor para dar, mas o guardava. Quando começamos a trabalhar isso em terapia, ela percebeu: a verdadeira responsabilidade não é desaparecer. É aparecer completamente e deixar que seu aparecimento transforme o espaço ao seu redor. Ser uma boa visitante significa: contribuir. Ser presente. Ouvir com atenção. Mas também significa: reclamar seu direito de estar aqui. De tomar espaço. De deixar marcas.
A instrução prática aqui: Esta semana, faça algo que você normalmente não faria por medo de “incomodar”: compartilhe uma ideia numa reunião. Convide alguém para conversar. Diga não a algo que não quer fazer.
Observe como você se sente quando deixa de desaparecer.
7. “VOLTE COM CICATRIZES E HISTÓRIAS”
Ou: Por que suas feridas são seus prêmios.
A última instrução é talvez a mais importante: você não vai sair viva daqui. E o tempo passa rápido. Então volte com cicatrizes e boas histórias para contar.
Isso é um convite para viver plenamente. Não apesar do sofrimento, mas através dele.
Recebi uma mulher, Raquel, aos 60 anos. Havia passado por um câncer, um divórcio, uma falência. Quando me contava essas histórias, seus olhos brilhavam.”Dra., eu não gostaria de ter passado por nada disso”, ela disse. “Mas agora que passei, não troco essas cicatrizes por nada. Elas me fazem quem eu sou.” Isso é maturidade psicológica. Não é resignação. É integração. Suas feridas não são fracassos. São evidências de que você lutou. De que você sobreviveu. De que você está aqui, ainda de pé. Elas são a prova de sua resiliência e a riqueza de sua jornada.
A instrução prática aqui: Reconheça suas cicatrizes como marcas de superação, não de falha. Compartilhe sua história quando se sentir pronta, pois ela pode ser a luz para outra pessoa.
Guia de Ação: Como Usar Isso Agora
A verdadeira mudança acontece na ação. Aqui está o que fazer:
Esta semana: Escolha uma instrução que mais ressoe com você agora. Pratique a ação prática associada a ela, todos os dias.Escreva o que você observa. Não precisa ser bonito. Apenas honesto.
Este Mês: Procure ajuda profissional se estiver em crise (psicólogo, psiquiatra, terapeuta). Não é fraqueza. É sabedoria.
Compartilhe este artigo com uma mulher que você sabe que está sofrendo.
Crie um ritual, pode ser ouvir o poema, ler este artigo, meditar, que te reconecte com essas instruções quando tudo ficar escuro.
Este Ano:
Reconstrua sua vida com base no que aprendeu. Cicatrizes levam tempo para se formar.
Encontre sua comunidade, mulheres que entendem, que não julgam, que também estão aprendendo a viver.
Volte e conte sua história. Porque quando você compartilha sua cicatriz, você dá permissão para que outras mulheres compartilhem as delas.
“Você não está aqui por acaso. Você foi selecionada. Sua alma está segura, mesmo quando tudo parece desmoronar. E sim, você vai sofrer. Mas você também vai amar, rir, criar, transformar. “
Quando tudo ficar muito escuro, lembre-se: você é uma visitante nesta Terra. Você não precisa ser perfeita. Você só precisa estar aqui, completamente, com suas cicatrizes e suas histórias.
E quando chegar a hora de partir, que seja com o coração cheio, não de arrependimento, mas de gratidão por ter vivido.