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Ninfoplastia: aumento de cirurgias íntimas, necessidade ou modismo?

Por Dra. Nárcia Vilaça – Ginecologista e Sexóloga

Até pouco tempo atrás, a vulva era uma das partes mais invisíveis do corpo feminino. Pouco se falava sobre sua anatomia, suas funções e, menos ainda, sobre as dúvidas e inseguranças que muitas mulheres carregavam em silêncio. Hoje, essa realidade mudou. As redes sociais, a maior abertura para discutir sexualidade e o acesso à informação trouxeram o assunto para o centro das conversas. Ao mesmo tempo, surgiu um fenômeno que merece nossa atenção: o crescimento expressivo da procura pela ninfoplastia.


A cirurgia, que reduz o tamanho dos pequenos lábios, desperta opiniões diversas. Para algumas pessoas, ela representa apenas mais um procedimento estético. Para outras, uma forma legítima de aliviar desconfortos físicos e recuperar a autoestima.


No consultório, encontro mulheres que convivem há anos com limitações que poucas pessoas imaginam. O desconforto ao praticar exercícios, a dor provocada pelo atrito das roupas, a dificuldade para andar de bicicleta, a irritação constante, o incômodo durante as relações sexuais e até vergonha de se mostrarem, fazem parte da rotina de algumas delas. Nesses casos, a cirurgia deixa de ser uma questão de aparência e passa a ser uma opção para recuperar qualidade de vida.


Mas existe uma outra realidade que também precisa ser discutida. Nunca fomos tão expostas a imagens do corpo feminino quanto somos hoje. Fotografias cuidadosamente editadas, conteúdos produzidos para a pornografia e procedimentos estéticos amplamente divulgados acabam criando,  a ideia de que existe uma vulva “ideal”. Muitas mulheres passam a observar a própria anatomia com um olhar crítico, comparando-se a imagens que, frequentemente, não representam a diversidade natural do corpo feminino.


A medicina conhece essa diversidade há muito tempo. Não existe um formato considerado padrão. Os pequenos lábios podem ser maiores ou menores, mais claros ou mais escuros, simétricos ou não. Essas características fazem parte da individualidade de cada mulher e, assim como o nariz, as mamas, as orelhas… e na imensa maioria das vezes, são absolutamente normais.


Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) mostram que a ninfoplastia  está entre os procedimentos estéticos que mais cresceram na última década. Entre 2015 e 2019, o número de cirurgias realizadas no mundo aumentou mais de 70%. O Brasil ocupa, há vários anos, a liderança mundial nesse procedimento. Em 2019, foram registradas mais de 30 mil cirurgias no país e, em 2024, esse número permaneceu elevado, com cerca de 29 mil procedimentos, reforçando que a procura continua expressiva. 


Talvez o maior desafio seja justamente distinguir uma necessidade real de uma insatisfação construída.


Como ginecologista e sexóloga, acredito que esse seja um dos papéis mais importantes da consulta médica: criar um espaço seguro para que a mulher compreenda seu próprio corpo antes de decidir transformá-lo. Informação de qualidade, acolhimento e uma avaliação individualizada são tão importantes quanto qualquer procedimento cirúrgico.


Não se trata de defender ou condenar a ninfoplastia. Trata-se de devolver às mulheres algo que, por muito tempo, lhes foi negado: o direito de conhecer sua anatomia, compreender sua funcionalidade e fazer escolhas livres, conscientes e livres de julgamentos.


O corpo feminino não pode caber em um único molde. Sua beleza está justamente na diversidade.


Nesse quesito, a verdadeira liberdade das mulheres começa quando deixamos de buscar a perfeição para construir uma relação de respeito e conforto com o nosso corpo.

A Lição de Martha: por que não podemos esquecer a poliomielite

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

Você já imaginou viver dependente de um pulmão de aço?

Essa foi a realidade de Martha Lillard, uma norte-americana que não teve a oportunidade de ser vacinada contra a poliomielite, como acontece com as crianças da atualidade. Ela contraiu a doença aos cinco anos de idade, dois anos antes de a vacina contra a pólio ser disponibilizada nos Estados Unidos, em 1955.

Foto reprodução internet

Martha faleceu em 26 de junho, aos 78 anos, tornando-se uma das últimas pessoas no mundo a utilizar um pulmão de aço. Permaneceu ligada ao equipamento por cerca de 70 anos, pois a poliomielite paralisou os músculos responsáveis pela sua respiração.

Com o passar das décadas, manter o aparelho em funcionamento tornou-se um desafio crescente. Encontrar profissionais capacitados para realizar os reparos e peças de reposição era cada vez mais difícil. Sua família vivia em constante apreensão, inclusive em relação ao fornecimento de energia elétrica, dependendo de geradores sempre que havia interrupções no serviço.

Martha morreu em decorrência de complicações após a COVID-19. Sua história nos transporta para um período em que a poliomielite vitimava centenas de milhares de crianças e em que não existiam os modernos recursos de ventilação mecânica disponíveis hoje.

Antes da vacinação em massa, a doença provocava mais de 350 mil casos por ano em todo o mundo. Em 1988, estimava-se que mais de mil crianças eram paralisadas diariamente pela poliomielite. Graças aos esforços da Organização Mundial da Saúde, de governos e de diversas instituições parceiras, a incidência global da doença caiu mais de 99%.

Atualmente, a poliomielite permanece endêmica apenas no Paquistão e no Afeganistão. Em 2018, foram registrados apenas 30 casos nesses dois países, resultado de um intenso esforço internacional para erradicar definitivamente a doença. No Brasil, o último caso foi registrado em 1989, e, em 1994, as Américas receberam a certificação de eliminação da poliomielite.

O chamado “pulmão de aço” era um grande cilindro metálico hermeticamente fechado, no qual o paciente permanecia deitado com o corpo completamente selado, deixando apenas a cabeça para fora. O equipamento funcionava por meio da alteração da pressão negativa no interior do cilindro, promovendo a expansão e a contração dos pulmões e reproduzindo, de forma mecânica, o processo natural da respiração.

Apesar da dependência do aparelho durante toda a vida, Martha manteve uma rotina admirável. Segundo seu marido, ela pintava, cozinhava e cuidava de seus cães. Apenas nos últimos anos, após contrair COVID-19 e desenvolver herpes-zóster, tornou-se totalmente dependente do pulmão de aço.

A trajetória de Martha é um poderoso lembrete do valor da ciência e da vacinação. Graças às vacinas, milhões de crianças foram poupadas de uma doença que roubava movimentos, sonhos e, muitas vezes, a própria vida. Que sua história inspire pais, profissionais de saúde e gestores públicos a manterem altas as coberturas vacinais, para que nenhuma criança volte a conhecer a poliomielite além das páginas dos livros de História. Afinal, toda criança merece apenas correr, brincar e viver plenamente a infância que Martha nunca pôde experimentar.

 

Quando deixamos de ser vistos: A solidão que cresce em silêncio

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Nos últimos anos, tornou-se comum afirmar que a grande epidemia do nosso tempo é a ansiedade ou a depressão. Os números parecem confirmar essa impressão: crescem os diagnósticos, os afastamentos do trabalho, as queixas de exaustão emocional, angústia e sensação de vazio.

Como psiquiatra, acompanho diariamente pessoas que lutam contra esses desafios. Sei o quanto eles afetam a vida, os relacionamentos e até o corpo. Mas, pouco a pouco, comecei a perceber que talvez esses números não contem a história inteira.

Talvez ansiedade e depressão não sejam apenas doenças.

Talvez sejam também o sintoma de uma perda mais profunda: a perda dos lugares onde somos verdadeiramente vistos.

Vivemos hiperconectados. Falamos com muitas pessoas, compartilhamos imagens, ideias e fragmentos de vida. Mas estar exposto não é o mesmo que ser visto.

Ser visto é sentir que alguém reconhece nossa existência sem que precisemos performar força o tempo todo. É ter espaço para dúvidas, medos e sonhos sem medo de julgamento.

E esse tipo de espaço está desaparecendo.

Comunidades encolheram, conversas longas rarearam, encontros espontâneos sumiram. As amizades foram empurradas para os intervalos possíveis da agenda. A produtividade ocupou o terreno que antes era do encontro humano.

Estamos cercados de gente e privados de pertencimento.

Não surpreende que pesquisas apontem uma “recessão de amizades”: menos amigos íntimos, menos encontros, menos partilhas.

E isso importa, porque conexão social não é apenas conforto emocional.

É saúde.

Relações significativas reduzem risco de ansiedade, depressão, doenças cardiovasculares, declínio cognitivo e até mortalidade precoce.

A Medicina do Estilo de Vida coloca a conexão social entre seus pilares centrais, talvez o mais negligenciado.

Entre as mulheres, essa perda assume contornos ainda mais profundos.

Historicamente, foram elas que sobreviveram em redes de apoio. A biologia ecoa isso: a ocitocina, hormônio do vínculo, do cuidado e da confiança, marca experiências tipicamente femininas. Quando uma mulher se distancia de vínculos significativos, não perde apenas companhia, perde um espaço fundamental de identidade.

E isso acontece devagar.

Primeiro vêm os filhos. Depois a carreira. Depois os pais que envelhecem. Depois as responsabilidades financeiras. Depois as urgências de todos os outros.

O espaço onde ela poderia existir como mulher e não apenas como função, vai sendo adiado indefinidamente.

O resultado é um tipo de solidão que não se nota à primeira vista: a solidão acompanhada.

Aquela que acontece dentro de casas cheias, agendas lotadas e vidas aparentemente normais.

Uma solidão que nasce não da ausência de pessoas, mas da ausência de conexão verdadeira.

Por isso tantas mulheres descrevem uma sensação difícil de nomear.

Não sabem o que falta, apenas sentem que perderam algo no caminho.

Talvez o que tenha se perdido seja a experiência de ser reconhecida em sua humanidade.

Porque todos nós precisamos de espelhos.

Precisamos de pessoas que nos lembrem quem somos quando a vida nos afasta de nós mesmos.

Precisamos de relações que sustentem nossa história quando os desafios ameaçam desfigurá-la.

Quando esses espaços desaparecem, perdemos mais do que companhia.

Perdemos referência.

Perdemos abrigo.

Perdemos lugares onde podemos descansar das máscaras que o mundo exige.

E poucas coisas adoecem tanto quanto não pertencer a lugar algum.

A saúde mental não se constrói apenas com terapias ou medicamentos, embora ambos sejam essenciais. Ela se constrói também na amizade que resiste ao tempo, na conversa que acolhe, na comunidade que sustenta, no olhar que enxerga.

Talvez a pergunta mais urgente não seja como reduzir a ansiedade. Talvez seja: Onde ainda existem lugares onde podemos ser verdadeiramente vistos?

E, de modo ainda mais íntimo: Em quantos lugares você pode ser inteiramente você?

A cura, muitas vezes, não começa quando encontramos respostas.

Começa quando encontramos um lugar onde podemos existir sem provar nada, sem desempenhar papéis, simplesmente pertencendo.

Talvez seja exatamente isso que esteja faltando.

E talvez seja justamente isso que precisamos reconstruir: não apenas para sermos mais felizes, mas para sermos mais saudáveis, mais inteiras, mais humanas.

A Pílula da Longevidade Existe?

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

Se existisse uma pílula mágica capaz de aumentar nossa expectativa de vida, certamente a maioria das pessoas gostaria de tomá-la.

Nesse cenário, o acompanhamento por profissionais sérios, que não alimentam falsas promessas, torna-se cada vez mais importante. A inteligência artificial, inclusive, surge como uma grande aliada, ajudando na interpretação de dados e algoritmos para oferecer avaliações e tratamentos mais individualizados e precisos.

Ela não substituirá o profissional de saúde; ao contrário, servirá como uma ferramenta para potencializar seu trabalho, liberando mais tempo para aquilo que nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir: a escuta acolhedora, o atendimento humanizado e o cuidado personalizado. Em um modelo de saúde centrado na prevenção, o médico não espera que a doença se instale. Ele monitora, ajusta e intervém ao identificar os primeiros sinais de desequilíbrio. Infelizmente, o modelo ainda predominante em nosso país continua sendo o do tratamento de doenças já estabelecidas, quando algum prejuízo à saúde muitas vezes já ocorreu.

No dia 18 de junho, no Vale do Silício, nos Estados Unidos, a empresa Midjourney, conhecida por suas soluções de inteligência artificial para geração de imagens, anunciou um equipamento revolucionário com a capacidade de mapear todo o corpo humano em menos de 60 segundos. O paciente entra em uma piscina de água morna enquanto ondas de ultrassom atravessam seu corpo, produzindo imagens semelhantes às de uma ressonância magnética e criando um modelo tridimensional detalhado da composição corporal, dos órgãos e dos tecidos.

A tecnologia tem como proposta identificar precocemente alterações e processos inflamatórios que, futuramente, poderiam contribuir para o surgimento de doenças. Sua ideia central não é diagnosticar enfermidades, mas monitorar continuamente a saúde do indivíduo por meio de exames periódicos e comparativos ao longo do tempo.

O chamado Ultrasonic CT apresenta ainda vantagens importantes: não utiliza radiação nem contraste, tornando o exame potencialmente mais seguro e acessível. A primeira unidade será instalada em São Francisco, na Califórnia, e a expectativa da empresa é implantar cerca de 50 mil equipamentos em diferentes países até 2032.

Ainda não se conhece com precisão o real impacto dessa tecnologia na prevenção de doenças e no aumento da longevidade. No entanto, ela representa mais um exemplo de como a inteligência artificial poderá contribuir para uma vida mais longa, saudável e com maior qualidade.

Enquanto a ciência avança, vale um alerta: desconfie de promessas milagrosas. Até o momento, não existe vitamina, alimento ou medicamento capaz de aumentar significativamente a longevidade de pessoas saudáveis. O que realmente transformou a expectativa de vida da humanidade foram medidas comprovadas, como o acesso ao saneamento básico, a vacinação e a adoção de hábitos saudáveis. Talvez a verdadeira “pílula da longevidade” continue sendo, pelo menos por enquanto, um estilo de vida equilibrado, aliado aos avanços da ciência e da medicina preventiva.

 

Quem sustenta você enquanto você sustenta o mundo?

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Talvez essa seja uma das perguntas mais fundamentais e, paradoxalmente, uma das mais difíceis que uma mulher pode se fazer.

Passamos grande parte da vida aprendendo a olhar para fora.

Aprendemos a cuidar.

A antecipar necessidades.

A perceber nuances emocionais que ninguém mais vê: o cansaço disfarçado, a tristeza silenciada, a preocupação que mal se confessa.

Aprendemos, sobretudo, a sustentar.

Sustentamos filhos.

Relacionamentos.

Famílias inteiras.

Equipes de trabalho.

Empresas.

Sustentamos sonhos, muitas vezes sonhos que nem são os nossos. E fazemos isso com tamanha competência que o trabalho invisível se torna quase imperceptível, embora nunca indolor.

A sociologia até criou um nome para parte desse fenômeno: mankeeping ,a responsabilidade silenciosa de manter vivas as conexões sociais ao redor dos homens.

São as mulheres que lembram aniversários, organizam encontros, preservam vínculos, criam oportunidades para que as relações continuem existindo.

Mas o mankeeping é apenas a superfície.

A verdade é que muitas mulheres não cuidam apenas das conexões dos homens.

Elas cuidam das conexões de todos.

Transformam-se nas guardiãs emocionais da família.

Tecelãs de vínculos.

As que mantêm a trama humana unida quando tudo ameaça se desfazer.

E é aqui que nasce a exaustão mais profunda.

Não a exaustão da agenda cheia, da lista de tarefas infinita ou da sobrecarga mental, embora tudo isso pese. Mas a exaustão de quem oferece pertencimento continuamente sem encontrar espaços onde também possa recebê-lo.

A Medicina do Estilo de Vida reconhece a conexão social como um pilar essencial da saúde. Mas existe uma diferença radical entre estar cercada de pessoas e sentir-se verdadeiramente amparada por elas.

Muitas mulheres estão cercadas. Poucas estão acolhidas.

Muitas cuidam. Poucas recebem cuidado.

Muitas escutam. Poucas encontram um ouvido que realmente as ouça.

Por isso tantas chegam à segunda metade da vida com uma sensação que não sabem nomear.

Não é solidão. Ao menos não no sentido óbvio.

É a estranha invisibilidade de quem foi tão necessária ao mundo que acabou desaparecendo de si mesma.

Não porque não sejam amadas. Mas porque passaram tanto tempo sustentando o mundo ao redor que deixaram de construir lugares onde elas próprias pudessem repousar.

Talvez seja hora de inverter a pergunta.

Em vez de se perguntar apenas quem precisa de você, pergunte: Quem está presente para você?

Quem conhece suas dores antes que você as esconda? Quem percebe quando você não está bem, mesmo quando você disfarça? Quem sustenta você enquanto você sustenta o mundo?

Porque força não é carregar tudo sozinha.

Força também é ter para onde voltar quando o peso se torna grande demais.

E talvez uma vida verdadeiramente saudável não seja aquela em que sustentamos todos os vínculos, mas aquela em que também encontramos pessoas capazes de nos sustentar.