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Carandaí 25: o que acontece quando a moda autoral encontra um delírio coletivo?

Há uma pergunta que sempre volta quando falamos sobre moda: o que faz uma pessoa se apaixonar por uma marca?

É a roupa? A história? A sensação de ter encontrado algo que parece ter sido feito exatamente para ela?

Ou seria simplesmente aquela pequena emoção de entrar em um lugar e pensar: “como eu ainda não conhecia isso?”

Talvez seja esse o verdadeiro charme do Carandaí 25.

De 18 a 20 de setembro, São Paulo recebe novamente o festival de moda autoral na Casa Higienópolis. E, se março foi uma espécie de reencontro, setembro chega com cara de continuação, só que maior, mais inquieta e, desta vez, sob o sugestivo nome de “Delírio Coletivo”.

E cá entre nós: existe nome melhor para um encontro de pessoas que acreditam que vestir também é uma forma de contar quem somos?

Foto: Raphael Figueiredo

A moda que não quer parecer igual

Durante três dias, mais de 80 marcas ocupam os cinco andares da Casa Higienópolis, transformando os cerca de 2.500 m² do endereço em um pequeno universo dedicado à moda, ao bem-estar e ao design brasileiro.

Entre os nomes que chegam para esta edição estão Carlos Penna, Caju London, Lo de Lui, Cru e Lulo Shoes. E há também aquelas descobertas que podem ser o verdadeiro motivo para sair de casa: Garnus, Onoma, Amapô, Ocre e Gammba estão entre as novas marcas apresentadas ao público.

Porque talvez uma das melhores coisas sobre a moda autoral seja justamente essa: ela ainda permite que você descubra algo que não está em todo lugar.

E existe um certo prazer nisso.

Um festival ou uma desculpa para sair da rotina?

O Carandaí 25 parece entender uma coisa que a moda aprendeu há muito tempo: uma boa experiência nunca é apenas sobre comprar.

Por isso, a programação inclui desfile de abertura, oficinas, conversas com especialistas e apresentações musicais.

Moda, cultura, música, design, pessoas.

Tudo misturado.

Como aqueles dias de verão que começam com um café e terminam em algum lugar que você não tinha planejado conhecer.

É exatamente essa atmosfera que inspira o “Delírio Coletivo”: dias mais longos, encontros inesperados e a fantasia de um verão que simplesmente decidiu não acabar.

Talvez seja esse o delírio.

A ideia de que ainda podemos nos surpreender.

Foto: Raphael Figueiredo

Quinze anos de histórias

Criado em 2012 pela empresária carioca Tati Accioli, o Carandaí 25 chega aos 15 anos com uma história que já atravessou cidades, mercados e gerações de criadores.

São mais de 40 edições realizadas no Brasil e em Paris, mais de mil marcas reunidas e um público que já ultrapassa 300 mil pessoas.

Mas números, por aqui, contam apenas metade da história.

A outra metade está nas marcas que encontraram visibilidade, nos empreendedores que conseguiram crescer, nos clientes que descobriram novos nomes e nos encontros que provavelmente começaram com uma simples pergunta:

“Onde você comprou isso?”

Ao longo dos anos, nomes como Ylla, Annaka, Totta, Zsolt, Manolita, Wasabi, Dipua, Angela Brito e Marcela B. ganharam projeção a partir do festival.

E talvez seja justamente aí que o Carandaí 25 se diferencia: ele não apenas apresenta moda. Ele cria contexto para que novas histórias aconteçam.

Porque o novo sempre começa em algum lugar

Hoje, o Carandaí 25 já ultrapassou o formato de evento.

São quatro lojas conceito entre Rio de Janeiro e São Paulo, além do Instituto Carandaí 25, que atua na formação e capacitação de empreendedores criativos por meio de mentorias, conteúdos e conexões estratégicas.

Em 2026, serão quatro grandes edições presenciais: duas em cada cidade.

É uma maneira interessante de olhar para a moda autoral brasileira: não como uma tendência passageira, mas como um ecossistema que precisa de espaço para existir, crescer e encontrar seu público.

E talvez seja por isso que voltar a São Paulo tenha um significado especial.

A cidade é acelerada. A moda também.

Mas, por alguns dias, a Casa Higienópolis propõe outra velocidade: aquela em que você pode entrar sem saber exatamente o que procura e sair com uma nova marca favorita, uma conversa inesperada e, quem sabe, uma peça que ainda vai render algumas histórias.

O delírio é coletivo. A descoberta é pessoal.

A entrada é gratuita e solidária, mediante a doação de um quilo de alimento não perecível.

E, entre 18 e 20 de setembro, São Paulo ganha novamente um endereço para quem gosta de moda, mas gosta ainda mais daquilo que existe por trás dela: pessoas, histórias, ideias e a possibilidade deliciosa de encontrar algo novo.

Porque no fim, talvez a moda autoral seja exatamente isso.

Um pouco de desejo. Um pouco de coragem. Um pouco de loucura.

E uma multidão inteira acreditando que ainda vale a pena criar algo que não se pareça com todo o resto.

Carandaí 25 — Delírio Coletivo
18 a 20 de setembro de 2026, das 11h às 21h
Casa Higienópolis — Av. Higienópolis, 758, Consolação, São Paulo
Entrada gratuita e solidária.

Sua libido cabe na vida que você leva?

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Há mulheres preocupadas porque perderam a libido. Algumas já investigaram os hormônios, compraram suplementos, trocaram o pijama e até marcaram um fim de semana romântico. Chegam ao hotel depois de organizar os filhos, responder mensagens do trabalho, conferir se a mãe tomou os remédios e lembrar ao companheiro, pela terceira vez, onde está o carregador dele. Então se deitam e descobrem, com alguma culpa, que o desejo não compareceu.

Talvez ele não tenha recebido o convite. Ou talvez tenha olhado para a programação e decidido ficar em casa.

Quando uma mulher percebe que sua vontade sexual diminuiu, geralmente dirige a suspeita contra si mesma. O que há de errado comigo? Será a menopausa? A idade? Falta de amor? Algum defeito que ainda não descobri?

A libido, porém, não vive isolada do restante da vida. Ela é influenciada por hormônios, saúde física, medicamentos, qualidade do sono, estado emocional, relação afetiva, experiências anteriores e pelas condições em que o encontro acontece. Não existe um único exame capaz de explicar tudo, assim como não existe uma solução que funcione para todas.

A perimenopausa chega sem pedir licença. O estrogênio diminui, o corpo se reorganiza, e o desejo, a lubrificação e o conforto durante a relação podem ficar no rastro dessa mudança. Ondas de calor, noites mal dormidas, um corpo que parece ter novas regras, tudo isso participa da história. Alguns antidepressivos e outros medicamentos também reduzem a resposta sexual, e nem sempre a mulher associa a pílula que tomou no café da manhã ao fade-out que sentiu à noite. Depressão, ansiedade, dor, cansaço persistente e certas condições clínicas merecem investigação.

Mas nem toda baixa libido começa nos hormônios.

Às vezes, o desejo tenta sobreviver em uma rotina na qual a mulher trabalha, cuida da casa, acompanha os filhos, preocupa-se com os pais e administra o funcionamento emocional de quase todos ao redor. Ao fim do dia, esperam que ela mude de função rapidamente e se torne disponível, descansada e interessada.

O corpo, aparentemente pouco comprometido com essa programação, pode não colaborar.

Também é preciso olhar para a relação. É difícil desejar quando existe ressentimento acumulado, falta de conversa, ausência de carinho fora da cama ou a sensação de que o sexo se tornou mais uma tarefa a cumprir. Uma mulher pode amar seu companheiro e, ainda assim, não desejar a forma como a intimidade acontece entre eles.

Outro equívoco frequente é imaginar que o desejo sempre deve surgir espontaneamente, como nos primeiros meses de uma paixão. Para muitas mulheres, especialmente em relações longas, ele pode aparecer depois que a aproximação começa. É o chamado desejo responsivo. A vontade não surge necessariamente antes do beijo, do toque ou da conversa. Ela pode ser despertada por um contexto de segurança, intimidade, tempo e estímulo adequado.

Pense na mulher que não sentiu vontade o dia inteiro. Não sentiu, e isso é fato. Mas aceitou sentar no sofá ao lado de alguém, aceitou uma mão no cabelo, aceitou ficar. E em algum momento, sem aviso prévio, algo mudou. Não foi um clique dramático, foi um aquecimento lento, como uma panela que ninguém vigia e que, de repente, está fervendo. Isso é desejo responsivo: a vontade que não antecipa, mas responde.

Isso não significa que a mulher deva aceitar uma aproximação que não deseja. Significa apenas que não sentir uma vontade repentina, no meio de uma terça-feira exaustiva, não prova que sua sexualidade desapareceu.

Também não existe uma frequência sexual correta. Algumas mulheres vivem bem com menos atividade sexual. Outras sofrem com a mudança e sentem falta da própria capacidade de desejar. O sofrimento, e não a comparação com amigas, pesquisas ou expectativas do parceiro, é um dos principais sinais de que vale procurar ajuda.

A avaliação pode envolver ginecologista, psiquiatra, psicoterapeuta, sexóloga ou outros profissionais, conforme cada situação. Dor durante a relação, secura vaginal, alteração persistente do desejo, sintomas depressivos e mudanças importantes após o início de um medicamento não devem ser tratados apenas com resignação.

Talvez sua libido não tenha desaparecido. Talvez esteja reagindo às condições que encontrou.

Antes de procurar um defeito em si mesma, experimente fazer outras perguntas. Como está meu corpo? Tenho dormido? Sinto dor? Ainda existe intimidade em minha relação? O sexo se tornou uma cobrança? Conheço o que me dá prazer? Há espaço para que eu seja alguém além daquela que resolve tudo?

A libido não é uma funcionária indisciplinada que precisa ser advertida por baixa produtividade. Ela é uma resposta sensível ao modo como o corpo, a mente e a relação estão vivendo.

Talvez a pergunta não seja apenas por que deixei de desejar.

Talvez seja: o que precisaria mudar para que o desejo encontrasse lugar na vida que levo?

Sobre Dálias, Mulheres e Rótulos

Por Dra. Nárcia Vilaça – Ginecologista e Sexóloga

Há alguns dias, fiz um arranjo de flores para enfeitar a recepção do meu consultório.

Escolhi dálias cor-de-rosa e as combinei com espadas-de-São-Jorge. Gostei daquela composição quase intuitiva: de um lado, a delicadeza exuberante das flores; do outro, a firmeza das folhas que se erguem, retas e imponentes.

Uma paciente entrou, olhou para o arranjo e comentou, quase como quem pede desculpas:

— As dálias são lindas, mas significam sofrimento. Ainda bem que você colocou as espadas-de-São-Jorge. Estas, sim, atraem proteção.

Apenas sorri.

Olhei novamente para as dálias e pensei: como uma flor tão bonita poderia significar sofrimento?

A pergunta ficou comigo. E, confesso, me incomodou.

Curiosa que sou, fui pesquisar. Descobri que as dálias não têm um único significado. Originárias do México, onde eram cultivadas pelos astecas, são hoje a flor nacional daquele país, associadas à força, ao orgulho e à identidade. Em diferentes épocas e culturas, também foram relacionadas à elegância, à dignidade, ao compromisso, à gratidão e à renovação.

O significado não está na flor, mas no olhar de quem a vê.

E as mulheres não vivem algo parecido?

Uma mulher pode ser considerada forte por alguém e fria por outro.

Independente para uns e difícil para outros.

Vaidosa ou fútil.

Cuidadosa ou controladora.

Emocional ou sensível.

Corajosa ou inconsequente.

A mesma mulher. Diferentes interpretações.

No consultório, recebo mulheres que chegam trazendo frases prontas sobre si mesmas:

“Eu sempre fui assim.”

“Eu preciso dar conta de tudo.”

“Minha mãe também era assim.”

“Sou muito ansiosa.”

“Não tenho mais idade para isso.”

“Meu corpo não é mais o mesmo.”

E, às vezes, chegam também com os rótulos que a sociedade lhes deu: a divorciada, a viúva, a solteira, a gorda, a velha, a vadia…

Pouco a pouco, aquilo que alguém disse sobre nós pode deixar de ser apenas uma opinião e se transformar em uma espécie de sentença.

Em algum momento, uma palavra passa a ocupar o lugar de toda uma história.

Amadurecer pode ser isso: uma oportunidade de revisão.

Revisar as histórias que nos contaram e aquelas que aprendemos a contar sobre nós mesmas.

Revisar expectativas que um dia fizeram sentido, mas que hoje já não fazem mais.

Descobrir que aquilo que funcionou aos 30 pode não servir aos 50.

Que uma mulher que passou a vida sendo “a responsável” pode estar cansada de sustentar tudo.

Que aquela que sempre foi “boazinha” talvez queira, finalmente, desagradar.

Que a mulher que aprendeu a esconder o desejo talvez queira descobrir o que ainda a desperta.

Que o corpo que um dia foi tratado como projeto talvez possa, simplesmente, voltar a ser casa.

Não para apagar o que fomos, mas para escolher, entre tantas versões, quais ainda fazem sentido.

E essa é uma das formas mais bonitas de liberdade.

Na saída, olhei mais uma vez para o arranjo.

As dálias continuavam ali, com suas pétalas abraçando umas às outras, camadas sobre camadas. Apenas sendo belas, como sabem ser.

As espadas-de-São-Jorge permaneciam eretas ao lado delas, firmes, silenciosas, protegendo o que quer que alguém acredite que devam proteger.

Nenhuma das duas parecia se importar com o significado que lhes atribuíam.

Novamente, pensei nas mulheres…

Nem todo iogurte é iogurte: o que o rótulo não conta.

De alimento ancestral a queridinho da alimentação saudável: saiba como escolher o iogurte certo e não cair nas armadilhas das embalagens

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

Engana-se quem pensa que o iogurte é um alimento do homem moderno. Entre 4000 e 7000 a.C., na Mesopotâmia, os homens já consumiam algo semelhante. O leite era armazenado em bolsas de couro ou potes de barro e, com o calor, acabava fermentando, o que permitia que fosse consumido por mais tempo.

Originalmente, o iogurte era produzido com leite de cabra, búfala ou ovelha. Médicos da Antiguidade, como Galeno, já o recomendavam para “purificar o sangue” e auxiliar no tratamento de problemas do estômago.

No início do século XX, foi identificada a bactéria responsável pela fermentação do leite. Em 1907, o biólogo russo Ilya Mechnikov, do Instituto Pasteur, relacionou o alto consumo de iogurte pelos camponeses búlgaros à boa saúde e à longevidade daquela população.

Em 1919, o empresário Isaac Carasso começou a produzir iogurte em grande escala na Europa e batizou sua marca de Danone, em homenagem ao filho, Daniel. Mais tarde, a adição de geleia de frutas ajudou a popularizar ainda mais o produto.

Hoje, sabemos que o iogurte pode ser uma excelente fonte de proteínas, cálcio, zinco, fósforo e vitaminas A e do complexo B, além de conter microrganismos vivos, como os probióticos. Esses podem contribuir para o equilíbrio da microbiota intestinal, favorecendo a saúde digestiva e o sistema imunológico.

Seu consumo também pode contribuir para a saúde dos ossos e dentes, para a manutenção da massa muscular e para o controle da fome, por aumentar a sensação de saciedade.

Existem atualmente diversas opções no mercado: natural, integral ou desnatado, com ou sem lactose, grego, com pedaços de frutas e até produtos que parecem iogurte, mas pertencem a outra categoria: as chamadas bebidas lácteas.

É muito importante ler o rótulo antes de comprar. E aqui vale uma regra prática: quanto mais simples a lista de ingredientes, melhor.

Dê preferência aos iogurtes naturais, que tradicionalmente contêm apenas dois ingredientes: leite e fermento lácteo. Evite, sempre que possível, aqueles com excesso de açúcar adicionado e grande quantidade de aditivos, como espessantes, aromatizantes, essências e emulsificantes.

O iogurte natural é extremamente versátil e pode ser utilizado em sobremesas, bolos, molhos, frutas picadas ou batidas, além de combinações com mel, castanhas e cereais.

Também é possível prepará-lo em casa. Basta aquecer um litro de leite, esperar que fique morno e adicionar um pote de iogurte natural como fermento. A partir daí, é possível produzir novas porções, com baixo custo.

Natural ou grego: qual a diferença?

Essa é uma dúvida muito comum nos consultórios.

O iogurte grego tradicional é produzido a partir da filtragem do iogurte natural. Nesse processo, parte do soro é retirada, resultando em uma consistência mais firme e cremosa e, proporcionalmente, em maior concentração de proteínas. Dependendo do produto, porém, também pode haver maior concentração de gordura e calorias.

No Brasil, muitos produtos comercializados como “tipo grego” são produzidos de maneira diferente. Em vez da filtragem tradicional, podem receber ingredientes como amido e creme de leite para ganhar cremosidade. Muitos também contêm açúcar ou adoçantes.

E as bebidas lácteas?

As bebidas lácteas são outra categoria que pode confundir o consumidor. Geralmente, apresentam menor teor de proteínas do que o iogurte e podem conter mais açúcar, sódio, amido, gordura vegetal e outros aditivos, dependendo da formulação.

Por isso, não basta olhar a embalagem ou escolher pelo preço. É preciso ler a lista de ingredientes e a tabela nutricional.

Com tantas opções nas prateleiras, aprender a interpretar as letras miúdas das embalagens é fundamental para fazer escolhas mais conscientes.

Por fim, fica a dica mais valiosa: priorize o iogurte natural, combine-o com alimentos nutritivos e saborosos e aproveite a versatilidade desse alimento que atravessou milhares de anos e continua fazendo parte de uma alimentação equilibrada.

 

POR QUE AINDA VIVEMOS COMO SE NÃO HOUVESSE O SUFICIENTE?

Uma análise sobre os registros de escassez e a busca pela abundância possível

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Há pessoas que guardam a melhor louça para uma ocasião especial. Economizam o perfume favorito, adiam a viagem, deixam a roupa nova esperando no armário. Trabalham além do necessário, descansam menos do que precisam e sentem certo desconforto quando a vida oferece algo bom como se o agora nunca fosse exatamente o momento certo.

Por trás desses gestos, existe uma sensação antiga e persistente: é preciso guardar, porque amanhã pode faltar.

A escassez costuma ser associada ao dinheiro, mas seu alcance é muito maior. Podemos viver com medo de que faltem tempo, amor, reconhecimento, saúde, oportunidades, disposição ou segurança. Podemos acreditar que não há espaço para todos e que, por isso, precisamos disputar. Ou imaginar que as boas fases são breves demais e que, ao relaxar, algo será inevitavelmente perdido.

Nem toda escassez é imaginária. A falta existe e deixa marcas. Há quem tenha crescido em casas onde tudo era contado. Quem conheceu instabilidade, perda, ausência de cuidado ou a insegurança de não saber o que viria no dia seguinte. E há escassezes mais silenciosas: pouco afeto, atenção que precisava ser merecida, a aprendizagem de não pedir para não incomodar.

Essas experiências não desaparecem apenas porque a vida muda.

O tempo passa, os recursos aumentam, as circunstâncias se transformam, mas uma parte de nós continua reagindo como se o perigo ainda estivesse à porta. A falta termina do lado de fora, mas permanece ativa por dentro. É assim que uma experiência se torna um registro.

E esse registro molda a forma como percebemos o mundo. Diante de uma oportunidade, vemos primeiro o risco. Quando alguém oferece ajuda, imaginamos o custo oculto. Quando recebemos reconhecimento, desconfiamos. Quando surge um desejo, tratamos de reduzi-lo antes mesmo de considerá-lo.

A escassez também aparece na relação com o tempo. Vivemos correndo porque sentimos que ele nunca será suficiente. Enchemos a agenda, antecipamos problemas,tentamos controlar tudo. Descansar gera culpa, porque aprendemos a associar valor pessoal à produtividade. Mesmo parados, seguimos em alerta.

Nos relacionamentos, o medo da falta assume formas contraditórias. Alguns aceitam menos do que precisam para não ficarem sem nada. Outros exigem garantiasimpossíveis. Há quem permaneça em relações esvaziadas por medo de não encontrar outra possibilidade e há quem se afaste antes de se envolver, tentando evitar uma perda que ainda não aconteceu.

Nas mulheres, esse registro encontra muitas vezes terreno fértil em uma educação baseada na renúncia. Muitas aprenderam que ser boa é precisar de pouco, oferecer muito e não ocupar espaço demais. Tornaram-se hábeis em cuidar, sustentar e resolver, mas nem sempre em receber. Percebem o que falta aos outros, mas demoram a reconhecer o que lhes falta.

Receber pode ser mais difícil do que dar.

Receber exige admitir necessidade. Exige suportar não estar no controle. Exige usufruir sem justificativa. Para quem vive sob a lógica da escassez, isso pode gerar culpa, desconfiança e até a vontade de devolver o que chegou.

Por isso, algumas mulheres conquistam, mas não desfrutam. Alcançam algo desejado e já buscam o próximo passo. Compram algo e sentem remorso. Descansam e logo criam outra obrigação. Recebem um elogio e o anulam com explicações, como se a satisfação fosse perigosa.

Falar de prosperidade não é falar apenas de dinheiro. É reconhecer recursos, sustentar vínculos, aceitar apoio, fazer escolhas, permitir prazer e viver sem estar constantemente se preparando para a perda.

Isso não significa ignorar dificuldades reais ou romantizar a vida. Existem desigualdades, perdas e limitações que não podem ser reduzidas a uma questão de atitude. Mas existe uma pergunta que permanece: quanto das nossas escolhas atuais ainda está sendo guiado por faltas antigas?

Às vezes, passamos tanto tempo tentando evitar a escassez que também evitamos a abundância possível. Protegemos o pouco, mas não abrimos espaço para o que poderia chegar. Mantemos estratégias de sobrevivência mesmo quando já não estamos mais naquele cenário.

Reconhecer isso não é negar a própria história. É honrá-la sem ser governada por ela.

Talvez o primeiro movimento seja observar onde a escassez aparece: na dificuldade de pedir, na culpa ao descansar, no medo de investir em si, na tendência a aceitar menos, na necessidade de acumular, na sensação de que o melhor sempre é para os outros.

Depois, vem a pergunta mais importante: isso ainda é verdade hoje?

Nem tudo o que nos protegeu no passado precisa continuar nos guiando no presente. A expansão começa quando deixamos de organizar a vida inteira em torno do medo de perder. Ela pode ser simples: usar o que sempre foi guardado, aceitar ajuda sem compensar imediatamente, descansar antes do esgotamento, reconhecer um desejo sem diminuí-lo.

Talvez prosperar seja, antes de tudo, permitir que o suficiente seja reconhecido quando ele chega.

E você? Em que parte da sua vida ainda vive como se não houvesse o suficiente?