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Por que, em algumas mulheres, a candidíase sempre volta?

Por Dra. Nárcia Vilaça – Ginecologista e Sexóloga

A Candida albicans, o fungo responsável pela maioria dos casos de candidíase, vive no ambiente aguardando pacientemente condições favoráveis para proliferar, preferências? Áreas com umidade e calor. Pode ser na boca (muito comum em bebês), no esôfago, no intestino, no pênis e mais frequentemente na vagina. É difícil encontrar uma mulher que nunca teve um episódio de cândida na vida, mas algumas mulheres têm vários episódios recorrentes. E por que isso acontece? É o equilíbrio que se rompe e esse equilíbrio depende de muito mais do que de um sabonete íntimo.

A vagina abriga um ecossistema, não um vazio estéril. Os Lactobacilos, produzem ácido lático e mantêm o pH vaginal baixo, criando um ambiente hostil à proliferação fúngica descontrolada. Quando essa população de bactérias boas cai por antibióticos, por variações hormonais, por estresse crônico, a Cândida encontra espaço livre para se multiplicar. Tratar candidíase recorrente sem entender esse microbioma é como apagar incêndio e ignorar de onde vem o vazamento de gás.

Estudos mostram que o estrogênio favorece a aderência da Cândida às células vaginais e estimula seu crescimento filamentoso, forma mais agressiva e invasiva do organismo. Isso explica por que os episódios se concentram na segunda metade do ciclo menstrual, durante a gravidez, ou em mulheres que usam contraceptivos com dose mais alta de estrogênio.

A diabetes, mesmo em estágio pré-clínico, é outro fator que a ciência liga, há décadas, à candidíase de repetição. Glicose elevada no sangue significa glicose elevada nas secreções vaginais. Mulheres com resistência à insulina não diagnosticada frequentemente batem à porta do ginecologista pedindo o enésimo tratamento tópico, porém o tratamento precisa ser da causa metabólica de fundo. A obesidade, frequentemente associada à resistência insulínica e sudorese excessiva, também precisa ser abordada. Candidíase recorrente pode, e deve, funcionar como sinal de alerta para controle de peso e de glicemia.

Antibióticos merecem um parágrafo à parte, porque são provavelmente o gatilho mais subestimado. Eles não matam só a bactéria que causou sua infecção urinária ou sua sinusite eliminam também os lactobacilos protetores, abrindo uma janela perfeita para o fungo. É por isso que tantas mulheres relatam candidíase logo após um tratamento com antibiótico de amplo espectro. O problema não é usar o medicamento quando necessário e bem indicado, é como proteger a flora vaginal durante e depois desse uso.

Existe também uma dimensão que a ciência vem confirmando e que incomoda: a Candida forma biofilmes. Estruturas organizadas, resistentes, que se aderem à mucosa e funcionam quase como uma fortaleza contra antifúngicos convencionais. Isso explica por que alguns tratamentos de dose única simplesmente não resolvem em casos recorrentes, o fungo não foi eliminado, apenas reduzido temporariamente, escondido dentro de uma estrutura protetora que volta a se expandir semanas depois. Tratamento de candidíase recorrente exige tratamento prolongado e mudança de hábitos.

A resposta imunológica local também entra na equação, e aqui a genética tem um papel real. Pesquisas identificaram variações em genes ligados à imunidade inata, como os que codificam a proteína dectina-1, associadas a maior suscetibilidade à candidíase vulvovaginal recorrente. Ou seja: algumas mulheres não têm “mais fungo”. Têm um sistema imune geneticamente menos eficiente em reconhecer e combater esse fungo específico.

Vale desmontar um mito: higiene excessiva, duchas vaginais, sabonetes perfumados e “higienizantes” não previnem candidíase, na verdade, eles favorecem. Alteram o pH, destroem lactobacilos e deixam a mucosa mais vulnerável, não menos. A vagina é autolimpante. O papel da mulher é não interferir agressivamente nesse processo. Favorecer a proliferação de Cândida, usando roupas muito justas (que abafam a região genital, como o Jeans) roupas de ginástica por períodos prolongados, calcinhas que não permitem a ventilação, vão exigir muito mais esforço do seu organismo para evitar o crescimento do fungo na vagina.

O parceiro sexual precisa entrar na conversa. Embora a candidíase não seja uma infecção sexualmente transmissível, mas atividade sexual frequente, uso de lubrificantes com glicerina e micro traumas na mucosa podem contribuir para episódios recorrentes. Isso não significa culpar o parceiro, significa reconhecer que fatores mecânicos e de composição de produtos íntimos também favorecem a proliferação da Cândida.

Portanto, candidíase recorrente precisa ser avaliada a fundo. Tratar apenas o episódio agudo, repetidamente, sem investigar hábitos de higiene, comportamento, peso, hormônios, glicemia, uso de antibióticos, composição do microbioma, estado de stress e até fatores genéticos é tratar a fumaça e ignorar o fogo. 

Farmar Aura: a tendência que pode aproximar os jovens de uma vida mais saudável 

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

A expressão “farmar aura” tornou-se uma das grandes tendências comportamentais do TikTok e do Instagram. Ela é usada para descrever o ato de acumular pontos de estilo, carisma, postura e respeito perante os outros. O termo une o conceito gamer de “farmar“, acumular recursos de forma repetitiva à ideia de “aura“, entendida como a energia, a presença ou o magnetismo que uma pessoa transmite.

Nas redes sociais, a gíria funciona como uma brincadeira de pontuação baseada em comportamentos, em que se pode ganhar ou perder “aura”. Mais do que uma simples tendência da internet, esse fenômeno reflete a necessidade de aprovação e pertencimento, especialmente entre os jovens. Dependendo da repercussão de uma postagem, do número de curtidas e da validação recebida, essa busca pode gerar ansiedade e fragilizar a autoestima, sobretudo entre as adolescentes.

Trata-se da manifestação de uma geração que, muitas vezes, parece não saber existir sem uma plateia. No entanto, em vez de rejeitarmos esse movimento, podemos transformá-lo em uma oportunidade para incentivar hábitos que promovam saúde física e mental.

Adotar uma alimentação equilibrada, rica em alimentos naturais, vegetais e fibras, pode ser vista como uma demonstração de disciplina, autocuidado e amor-próprio. Cuidar do corpo e fazer escolhas alimentares conscientes aumentam a disposição, melhoram o humor e fortalecem a presença que transmitimos ao mundo, uma verdadeira forma de “ganhar aura”.

Por outro lado, a dependência excessiva de alimentos ultraprocessados, fast-food e o hábito de comer movido pela ansiedade ou de maneira automática comprometem a energia, reduzem a disposição física e favorecem o cansaço constante. Tudo isso acaba refletindo na forma como nos apresentamos e nos relacionamos com os outros.

O mesmo acontece com o sono. Noites mal dormidas resultam em expressão facial abatida, olheiras, dificuldade de concentração e lentidão mental. Já o estresse crônico imprime uma aparência de esgotamento, irritabilidade e falta de vitalidade.

Os relacionamentos também exercem forte influência sobre essa “aura”. Relações tóxicas drenam nossa energia emocional, enquanto vínculos saudáveis fortalecem o bem-estar, a sensação de segurança e a autoestima. Da mesma forma, o consumo de drogas, o tabagismo e o uso excessivo de álcool comprometem a saúde e repercutem negativamente na forma como vivemos e nos apresentamos.

Praticar atividade física regularmente, de forma prazerosa, manter constância nos exercícios e combater condições como a resistência à insulina que dificulta o metabolismo, eleva os níveis de glicose e favorece o ganho de peso, são atitudes que promovem saúde, disposição e qualidade de vida. Mais do que conquistar a admiração dos outros, esses hábitos fortalecem o respeito por si mesmo.

No fundo, a ideia de “farmar aura” associa a energia e a presença de uma pessoa ao seu estado de saúde integral. Sob a perspectiva da Medicina do Estilo de Vida (MEV), essa “aura” nada mais é do que a expressão visível do equilíbrio entre corpo, mente, relacionamentos e hábitos cotidianos.

Talvez a verdadeira “aura” não seja medida por curtidas, seguidores ou comentários, mas pela forma como escolhemos cuidar de nós mesmos todos os dias. Quando alimentamos o corpo com qualidade, preservamos o sono, cultivamos bons relacionamentos, movimentamos o corpo e encontramos propósito em nossa rotina, irradiamos uma presença que nenhum filtro é capaz de criar. Afinal, a aura mais admirável não é aquela que a internet valida, mas a que nasce de uma vida vivida com saúde, equilíbrio e autenticidade. 

 

Eu não temo a velhice . Temo a estagnação.

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Durante muitos anos, disseram às mulheres que o maior desafio da vida era envelhecer.

Como se o tempo fosse nosso inimigo.

Como se cada aniversário nos afastasse de quem poderíamos ser.

Nunca acreditei nisso.

Não temo envelhecer.

Temo a estagnação.

Porque o tempo transforma o corpo. Mas é a estagnação que endurece a vida.

Conheço mulheres de oitenta anos que continuam curiosas. Aprendem, perguntam, mudam de ideia, começam projetos, fazem amizades, descobrem novos interesses. Há uma vitalidade nelas que não depende da idade.

Também conheço mulheres muito mais jovens que já desistiram de si.

Continuam cumprindo seus papéis com competência. Trabalham, cuidam da família, resolvem problemas, atravessam os dias com eficiência.

Mas já não se surpreendem.

Já não sonham.

Já não experimentam.

Vivem como quem apenas administra a própria existência.

É um envelhecimento que não aparece primeiro no espelho.

Aparece quando deixamos de aprender.

Quando acreditamos que já somos quem seremos para sempre.

Quando repetimos os mesmos padrões, mesmo sabendo que eles nos fazem sofrer.

Quando confundimos estabilidade com imobilidade.

A medicina nos ensina muito sobre o envelhecimento do organismo. E esse conhecimento é indispensável.

Mas existe outra dimensão que merece a mesma atenção: a capacidade humana de continuar crescendo.

Crescer não significa viver em permanente inquietação.

Também não significa rejeitar quem fomos.

Significa preservar algo que nenhuma idade deveria nos tirar: a disposição para continuar nos tornando.

Ao longo da minha vida profissional, encontrei inúmeras mulheres que chegaram ao consultório dizendo que queriam aliviar um sintoma.

Ansiedade.

Insônia.

Cansaço.

Falta de desejo.

Mas, pouco a pouco, percebiam que o sofrimento não nascia apenas do corpo.

Nascia da distância entre a mulher que eram e a mulher que ainda poderiam ser.

Talvez seja por isso que algumas mudanças produzem tanto medo.

Elas nos obrigam a abandonar versões antigas de nós mesmas.

E crescer sempre exige pequenas despedidas.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos você tem.

Talvez seja esta: Em que momento da sua vida você parou de avançar?

E uma segunda pergunta, ainda mais importante:

O que, dentro de você, continua esperando para nascer?

Enquanto essa resposta existir, a vida continua chamando.

E talvez seja justamente isso que nos mantém verdadeiramente jovens.

Ninfoplastia: aumento de cirurgias íntimas, necessidade ou modismo?

Por Dra. Nárcia Vilaça – Ginecologista e Sexóloga

Até pouco tempo atrás, a vulva era uma das partes mais invisíveis do corpo feminino. Pouco se falava sobre sua anatomia, suas funções e, menos ainda, sobre as dúvidas e inseguranças que muitas mulheres carregavam em silêncio. Hoje, essa realidade mudou. As redes sociais, a maior abertura para discutir sexualidade e o acesso à informação trouxeram o assunto para o centro das conversas. Ao mesmo tempo, surgiu um fenômeno que merece nossa atenção: o crescimento expressivo da procura pela ninfoplastia.


A cirurgia, que reduz o tamanho dos pequenos lábios, desperta opiniões diversas. Para algumas pessoas, ela representa apenas mais um procedimento estético. Para outras, uma forma legítima de aliviar desconfortos físicos e recuperar a autoestima.


No consultório, encontro mulheres que convivem há anos com limitações que poucas pessoas imaginam. O desconforto ao praticar exercícios, a dor provocada pelo atrito das roupas, a dificuldade para andar de bicicleta, a irritação constante, o incômodo durante as relações sexuais e até vergonha de se mostrarem, fazem parte da rotina de algumas delas. Nesses casos, a cirurgia deixa de ser uma questão de aparência e passa a ser uma opção para recuperar qualidade de vida.


Mas existe uma outra realidade que também precisa ser discutida. Nunca fomos tão expostas a imagens do corpo feminino quanto somos hoje. Fotografias cuidadosamente editadas, conteúdos produzidos para a pornografia e procedimentos estéticos amplamente divulgados acabam criando,  a ideia de que existe uma vulva “ideal”. Muitas mulheres passam a observar a própria anatomia com um olhar crítico, comparando-se a imagens que, frequentemente, não representam a diversidade natural do corpo feminino.


A medicina conhece essa diversidade há muito tempo. Não existe um formato considerado padrão. Os pequenos lábios podem ser maiores ou menores, mais claros ou mais escuros, simétricos ou não. Essas características fazem parte da individualidade de cada mulher e, assim como o nariz, as mamas, as orelhas… e na imensa maioria das vezes, são absolutamente normais.


Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) mostram que a ninfoplastia  está entre os procedimentos estéticos que mais cresceram na última década. Entre 2015 e 2019, o número de cirurgias realizadas no mundo aumentou mais de 70%. O Brasil ocupa, há vários anos, a liderança mundial nesse procedimento. Em 2019, foram registradas mais de 30 mil cirurgias no país e, em 2024, esse número permaneceu elevado, com cerca de 29 mil procedimentos, reforçando que a procura continua expressiva. 


Talvez o maior desafio seja justamente distinguir uma necessidade real de uma insatisfação construída.


Como ginecologista e sexóloga, acredito que esse seja um dos papéis mais importantes da consulta médica: criar um espaço seguro para que a mulher compreenda seu próprio corpo antes de decidir transformá-lo. Informação de qualidade, acolhimento e uma avaliação individualizada são tão importantes quanto qualquer procedimento cirúrgico.


Não se trata de defender ou condenar a ninfoplastia. Trata-se de devolver às mulheres algo que, por muito tempo, lhes foi negado: o direito de conhecer sua anatomia, compreender sua funcionalidade e fazer escolhas livres, conscientes e livres de julgamentos.


O corpo feminino não pode caber em um único molde. Sua beleza está justamente na diversidade.


Nesse quesito, a verdadeira liberdade das mulheres começa quando deixamos de buscar a perfeição para construir uma relação de respeito e conforto com o nosso corpo.

A Lição de Martha: por que não podemos esquecer a poliomielite

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

Você já imaginou viver dependente de um pulmão de aço?

Essa foi a realidade de Martha Lillard, uma norte-americana que não teve a oportunidade de ser vacinada contra a poliomielite, como acontece com as crianças da atualidade. Ela contraiu a doença aos cinco anos de idade, dois anos antes de a vacina contra a pólio ser disponibilizada nos Estados Unidos, em 1955.

Foto reprodução internet

Martha faleceu em 26 de junho, aos 78 anos, tornando-se uma das últimas pessoas no mundo a utilizar um pulmão de aço. Permaneceu ligada ao equipamento por cerca de 70 anos, pois a poliomielite paralisou os músculos responsáveis pela sua respiração.

Com o passar das décadas, manter o aparelho em funcionamento tornou-se um desafio crescente. Encontrar profissionais capacitados para realizar os reparos e peças de reposição era cada vez mais difícil. Sua família vivia em constante apreensão, inclusive em relação ao fornecimento de energia elétrica, dependendo de geradores sempre que havia interrupções no serviço.

Martha morreu em decorrência de complicações após a COVID-19. Sua história nos transporta para um período em que a poliomielite vitimava centenas de milhares de crianças e em que não existiam os modernos recursos de ventilação mecânica disponíveis hoje.

Antes da vacinação em massa, a doença provocava mais de 350 mil casos por ano em todo o mundo. Em 1988, estimava-se que mais de mil crianças eram paralisadas diariamente pela poliomielite. Graças aos esforços da Organização Mundial da Saúde, de governos e de diversas instituições parceiras, a incidência global da doença caiu mais de 99%.

Atualmente, a poliomielite permanece endêmica apenas no Paquistão e no Afeganistão. Em 2018, foram registrados apenas 30 casos nesses dois países, resultado de um intenso esforço internacional para erradicar definitivamente a doença. No Brasil, o último caso foi registrado em 1989, e, em 1994, as Américas receberam a certificação de eliminação da poliomielite.

O chamado “pulmão de aço” era um grande cilindro metálico hermeticamente fechado, no qual o paciente permanecia deitado com o corpo completamente selado, deixando apenas a cabeça para fora. O equipamento funcionava por meio da alteração da pressão negativa no interior do cilindro, promovendo a expansão e a contração dos pulmões e reproduzindo, de forma mecânica, o processo natural da respiração.

Apesar da dependência do aparelho durante toda a vida, Martha manteve uma rotina admirável. Segundo seu marido, ela pintava, cozinhava e cuidava de seus cães. Apenas nos últimos anos, após contrair COVID-19 e desenvolver herpes-zóster, tornou-se totalmente dependente do pulmão de aço.

A trajetória de Martha é um poderoso lembrete do valor da ciência e da vacinação. Graças às vacinas, milhões de crianças foram poupadas de uma doença que roubava movimentos, sonhos e, muitas vezes, a própria vida. Que sua história inspire pais, profissionais de saúde e gestores públicos a manterem altas as coberturas vacinais, para que nenhuma criança volte a conhecer a poliomielite além das páginas dos livros de História. Afinal, toda criança merece apenas correr, brincar e viver plenamente a infância que Martha nunca pôde experimentar.