Georgina de Albuquerque: a impressionista brasileira que sabia que mulheres não nasceram para ser coadjuvantes

Muito antes de o protagonismo feminino virar pauta, uma pintora brasileira já fazia sua própria revolução com pincéis, cores e uma certa dose de ousadia.

Georgina de Albuquerque, Canto do Rio, c. 1926, óleo sobre tela, 76,5 X 105 cm, Museu Antônio Parreiras (Funarj), Niterói.

Quando pensamos em impressionismo, é quase inevitável imaginar Paris, jardins franceses, vestidos esvoaçantes e as pinceladas de Monet e Renoir. Mas e se eu dissesse que o Brasil também teve uma grande impressionista? E que, enquanto os homens pintavam os grandes acontecimentos da história, ela estava ocupada demais colocando as mulheres no centro da tela?

Seu nome era Georgina de Albuquerque. E, convenhamos, ela merece muito mais do que uma nota de rodapé na história da arte brasileira.

Nascida em Taubaté, em 1885, Georgina fez parte de uma geração de mulheres que precisou conquistar algo que hoje parece óbvio, mas que, no início do século XX, era quase um privilégio masculino: o direito de ser levada a sério como artista.

Aos 15 anos, começou a estudar pintura com o italiano Rosalbino Santoro. Aos 18, já expunha suas obras. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Nacional de Belas Artes e conheceu o pintor Lucílio de Albuquerque, com quem se casaria.

O casamento a levou a Paris, mas não exatamente para uma vida de passeios às margens do Sena. Enquanto o marido aperfeiçoava sua formação artística, Georgina também frequentava instituições prestigiadas, como a École des Beaux-Arts e a Académie Julian.

Foi na França que sua pintura ganhou a luminosidade, a delicadeza e a liberdade das pinceladas impressionistas. Entre estudos, maternidade e telas, Georgina construiu uma linguagem própria.

E aqui está um detalhe interessante: ela não precisava pintar revoluções para ser revolucionária.

Bastava pintar mulheres vivendo.

Em suas obras, elas aparecem trabalhando, conversando, descansando, pensando e ocupando espaços que nem sempre lhes eram concedidos na sociedade. Georgina pintava retratos, nus artísticos, paisagens, naturezas-mortas e cenas cotidianas. Mas havia algo especialmente moderno na maneira como representava o universo feminino.

Suas mulheres não estavam ali apenas para serem admiradas. Elas tinham presença, individualidade e uma vida que parecia continuar para além da moldura.

Em um mundo acostumado a transformar mulheres em musas, Georgina preferiu transformá-las em protagonistas.

E talvez essa tenha sido sua pincelada mais importante.

Paisagem do Rio de Janeiro. Georgina de Albuquerque. década de 1930

A independência também tinha uma mulher à mesa

Em 1922, enquanto o Brasil celebrava o centenário de sua Independência, Georgina decidiu revisitar um dos acontecimentos mais importantes da história nacional.

Mas ela não escolheu pintar cavalos, espadas erguidas ou um príncipe em pose heroica.

Escolheu uma reunião.

Na obra Sessão do Conselho de Estado, Georgina retratou a imperatriz Maria Leopoldina participando de uma das decisões políticas fundamentais para a Independência do Brasil.

Ao redor da mesa, figuras masculinas discutem os rumos do país. Mas é Leopoldina quem ocupa o lugar de destaque na narrativa.

E isso não era pouca coisa.

Naquele período, a pintura histórica era um território praticamente exclusivo dos homens. Ao entrar nesse gênero, Georgina não apenas conquistou um espaço profissional antes reservado aos artistas masculinos: ela também apresentou outra maneira de contar a história.

Uma versão na qual a Independência não era apenas resultado do gesto grandioso de um homem, mas também da inteligência, da articulação e da participação política de uma mulher.

Sessão do Conselho de Estado. Georgina de Albuquerque. 1922 – Óleo sobre tela (210 × 265 cm ) – Localização: Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro (RJ)

A escolha ganha ainda mais força quando lembramos que, naquele mesmo ano, o movimento feminista brasileiro se organizava em torno de reivindicações por direitos políticos, com a criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Não é possível afirmar que Georgina pretendia escrever um manifesto feminista. Mas é difícil ignorar o simbolismo de uma mulher pintando outra mulher no centro das decisões de um país em que as mulheres ainda não tinham conquistado o direito ao voto.

A artista que não esperou ser convidada

Georgina não se destacou apenas por aquilo que pintava. Sua própria trajetória foi uma sucessão de barreiras atravessadas.

Em 1919, recebeu a medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes. No ano seguinte, integrou, de forma pioneira, o júri de pintura da instituição.

A partir de 1927, passou a lecionar desenho na Escola Nacional de Belas Artes. E, em 1952, tornou-se a primeira mulher a assumir a direção da escola onde havia estudado décadas antes.

Há algo de deliciosamente simbólico nessa trajetória.

A jovem que entrou em uma instituição dominada por homens acabaria ocupando sua cadeira mais importante.

Georgina morreu em 1962, aos 77 anos, deixando uma produção que atravessa paisagens, corpos, jardins, interiores e acontecimentos históricos.

Sua pintura tem luz, cor e suavidade. Mas seria um erro confundir delicadeza com falta de força.

Porque, por trás da aparente tranquilidade de suas cenas, existe uma artista que ajudou a transformar o lugar da mulher na arte brasileira.

Talvez o verdadeiro luxo de uma obra de arte não esteja apenas em sua beleza, em sua raridade ou no museu que a abriga. Talvez esteja na capacidade de nos fazer enxergar aquilo que, durante muito tempo, escolhemos não ver.

Georgina de Albuquerque pintou mulheres que pensavam, trabalhavam, decidiam e existiam por conta própria.

E, mais de um século depois, suas telas ainda nos fazem uma pergunta bastante atual:

Se as mulheres sempre estiveram presentes na construção da história, por que demoramos tanto para colocá-las no centro da imagem?

Manhã de Sol. Georgina de Albuquerque (c.1920)
Cafezal. Georgina de Albuquerque. 1951
A Charrete. Georgina de Albuquerque. 1960

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