Heteropessimismo: o amor pelos homens e o cansaço das mulheres

Por Dra. Nárcia Vilaça – Ginecologista e Sexóloga

Foto reprodução série Love story

Uma mulher conta como terminou o namoro. Outra revira os olhos. Uma terceira solta um “homem é tudo igual” e, em poucos minutos, estão todas rindo de histórias que só têm graça porque se repetem tanto. Essa mistura de ironia, frustração e descrença nas relações entre homens e mulheres ganhou nome: heteropessimismo.

O termo se refere à desilusão com os relacionamentos heterossexuais, frequentemente expressa por meio de piadas, comentários sarcásticos e uma resignação compartilhada diante das experiências amorosas.

Mais do que o resultado de alguns relacionamentos malsucedidos, o heteropessimismo traduz o cansaço de mulheres educadas para tratar o amor como um projeto central de vida e que, por isso, muitas vezes acabam assumindo a responsabilidade de sustentar a relação, cuidar das emoções do parceiro e garantir a harmonia da casa.

Os números ajudam a explicar de onde vem esse cansaço. Segundo a PNAD Contínua 2022, do IBGE, as brasileiras dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Os homens tendem a dedicar mais tempo às tarefas domésticas quando moram sozinhos, enquanto a carga das mulheres aumenta quando dividem o lar com alguém, podendo chegar a 24,1 horas semanais.

Nos Estados Unidos, o sociólogo Michael Rosenfeld, da Universidade Stanford, analisou dados de mais de 4 mil adultos acompanhados entre 2009 e 2015 e estimou que cerca de 69% dos divórcios eram iniciados por mulheres. Nos namoros, por outro lado, homens e mulheres terminavam os relacionamentos em proporções semelhantes. A diferença aparece no casamento, levantando questões sobre a maneira como as responsabilidades conjugais costumam ser distribuídas.

Mas heteropessimismo não é sinônimo de escolher a solteirice. Não querer um relacionamento, priorizar a própria liberdade ou simplesmente não encontrar alguém interessante são escolhas legítimas. A questão começa quando a descrença se transforma em regra: esperar pouco dos homens, desconfiar de qualquer demonstração de afeto e assumir, antes mesmo de começar, que uma relação terminará em frustração.

É uma reação compreensível diante de desigualdades persistentes. Ainda assim, vale uma reflexão: estamos recusando relações que não nos fazem bem ou desistindo delas porque já não acreditamos que possam ser diferentes?

Talvez a resposta esteja em uma visão mais madura dos relacionamentos, distante da velha crença romântica de que o amor, sozinho, supera qualquer obstáculo.

Uma relação saudável não exige que a mulher diminua suas expectativas, silencie suas necessidades ou carregue sozinha a responsabilidade de fazê-la funcionar. Exige reciprocidade, presença emocional, divisão de responsabilidades e duas pessoas verdadeiramente dispostas a construir algo juntas.

As piadas sobre os homens podem continuar. Afinal, algumas histórias são tão absurdas que merecem mesmo uma boa risada entre amigas. O que não podemos permitir é que o humor se transforme em conformismo e nos faça esquecer que temos direito a relações melhores.

Ninguém precisa acreditar que todos os homens são maravilhosos para continuar acreditando que o amor pode ser bom. Talvez, o primeiro passo seja simplesmente deixar de aceitar como inevitável aquilo que já sabemos que é insuficiente.

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