Feridas emocionais não contam a história inteira

Um convite à reflexão e ao percurso da Contoterapia

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

Tem frases que a gente ouve uma vez e leva a vida inteira repetindo por dentro. Às vezes nem eram ditas para nós. Bastou assistir à cena, entender qual lugar estava disponível naquela casa e encontrar um jeito de caber nele.

Quando falo em feridas emocionais, penso nesse encontro entre o que aconteceu e o que fizemos para seguir em frente. A menina que se sentiu rejeitada aprende a não pedir. A que teve medo de ser deixada vira especialista em perceber qualquer mudança de tom na voz do outro. São respostas compreensíveis, e muitas delas. nos salvaram naquele momento. O problema é que continuamos obedecendo a elas décadas depois, já com outras escolhas na mão.

Para os encontros que preparei, escolhi olhar de perto para cinco temas: rejeição, abandono, humilhação, traição e injustiça. Cada um abre perguntas diferentes. Nada aqui é teste, diagnóstico ou explicação automática para a sua vida. Duas mulheres podem passar por situações parecidas e dar sentidos muito diferentes ao que viveram. E a mesma mulher pode mudar a forma de contar a própria história com o tempo.

Você já reparou como uma pequena crítica consegue nos acompanhar por dias? Quase nunca é a frase de agora que ocupa tanto espaço. É uma história antiga sendo convocada, um esforço antigo para ser aceita, o receio de voltar a ser diminuída. Não se trata de procurar toda reação na infância. Trata-se de perguntar, com curiosidade e sem julgamento, o que foi tão difícil ali para mim.

E é exatamente aí que os contos entram, e é por isso que eu amo conduzir esse trabalho. Os contos não nos interrogam. Eles colocam diante de nós personagens, perdas, escolhas e gestos. De repente você se surpreende defendendo alguém, ficando irritada com outro, ou reconhecendo uma vontade que ainda não tinha dito em voz alta. A história cria uma distância protetora, e é justamente essa distância que nos permite chegar mais perto de nós mesmas.

Quero que saiba: reconhecer uma ferida não obriga ninguém a perdoar, a retomar uma relação ou a contar publicamente o que viveu. O primeiro movimento pode ser bem menor e cabe perfeitamente na sua vida: perceber uma reação habitual e se perguntar se ela ainda protege você ou se já começa a limitar a vida que você quer levar.

Em novembro, vou conduzir em Belo Horizonte cinco encontros presenciais de Contoterapia, um para cada um desses temas. Em cada encontro haverá um conto, tempo para escrever e uma conversa em que cada participante fala apenas o que quiser, no seu tempo. Começamos em 09/11. As informações estão com a Bia, pelo WhatsApp +55 31 99542-7498.

Se alguma parte deste texto tocou algo em você, considere isso um convite. Tem lugar para você na roda.

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