Edgard Corona: o homem que fez da mudança seu maior império

Antes de transformar a maneira como milhões de pessoas cuidam do próprio corpo, o fundador da Smart Fit precisou compreender que as maiores transformações da vida começam muito antes de qualquer conquista.

O luxo mudou de forma. Já não se mede apenas pelo que se possui, mas pelo que se é capaz de conquistar e, sobretudo, pelo tempo que se dedica a si mesmo. Em um Brasil cada vez mais seduzido pela longevidade, pela estética e pela alta performance, o corpo tornou-se um novo símbolo de status. A disciplina ganhou prestígio, o suor tornou-se parte do estilo de vida e o bem-estar passou a ocupar um lugar privilegiado na hierarquia dos desejos contemporâneos.

Mas existe algo ainda mais fascinante por trás dessa transformação. Enquanto uma geração inteira se dedica a esculpir o próprio corpo, há quem tenha construído um império ao compreender o poder desse desejo.

E, em meio a tantas histórias de pessoas que procuram mudar a própria aparência, encontramos a de um homem que fez da mudança a essência de sua existência. Seu nome é Edgard Corona.

Reprodução Instagram Edgard Corona.

À frente da Smart Fit, ele ajudou a transformar a maneira como o brasileiro se relaciona com a atividade física. Mas seria pequeno demais contar sua história apenas pelos números de academias inauguradas, pelos países conquistados ou pelo patrimônio construído. Afinal, algumas trajetórias empresariais são sobre dinheiro. Outras, sobre poder. E existem aquelas que, quando observadas com atenção, revelam algo muito mais profundo sobre a natureza humana.

A história de Edgard Corona é, sobretudo, sobre a coragem de não permanecer o mesmo. E talvez essa seja a forma mais extraordinária de ambição: não desejar apenas conquistar o mundo, mas continuar disposto a se reinventar enquanto o conquista.

Muito antes de existir a Smart Fit, existia um jovem de 19 anos que, como tantos outros, ainda tentava descobrir o que faria da própria vida. Estudante de Engenharia Química na Fundação Armando Álvares Penteado, Edgard começou a trabalhar enquanto cursava o segundo ano da faculdade. Passou por um laboratório de análises de materiais e, pouco depois, encontrou no universo da moda jovem uma oportunidade de empreender.

Sim, antes de construir um dos maiores negócios de fitness da América Latina, ele trabalhou com jeans e camisetas.

É curioso pensar que a moda e o universo fitness, aparentemente tão distantes, compartilham uma característica essencial: ambos vendem, de alguma maneira, a possibilidade de transformação. A roupa que escolhemos vestir revela quem desejamos ser aos olhos do mundo. O corpo que buscamos construir, por sua vez, muitas vezes representa a versão de nós mesmos que esperamos encontrar.

Na confecção, Edgard descobriu algo que levaria para o restante da carreira: a importância de compreender o desejo de quem está do outro lado do negócio. Não se tratava simplesmente de oferecer um produto, mas de entender o que as pessoas verdadeiramente procuravam.

Uma lição que parece simples até percebermos quantas empresas passam a vida tentando convencer o público a desejar aquilo que elas decidiram vender.

O negócio prosperou. Ele poderia ter permanecido ali, desfrutando da segurança de um caminho conhecido. Afinal, quantas vezes confundimos estabilidade com felicidade? Quantas vezes nos agarramos ao que já conquistamos simplesmente porque temos medo de descobrir o que existe depois?

Mas havia em Edgard uma inquietação que não parecia interessada em respostas definitivas.

Em 1996, aos 34 anos, ele decidiu mudar de segmento e abriu sua primeira academia Bio Ritmo, em Santo Amaro, São Paulo.

Naquele momento, dificilmente seria possível imaginar a dimensão que aquela decisão alcançaria. E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas sobre os grandes começos: quase nunca reconhecemos sua importância enquanto estão acontecendo.

Às vezes, o capítulo que transforma uma vida começa como um simples experimento. E, outras vezes, começa quando alguma coisa dá errado.

No meio de sua trajetória, um acidente de esqui obrigou Edgard a enfrentar um período de recuperação e intensas sessões de fisioterapia. Para realizá-las, passou a frequentar a própria academia com mais assiduidade, aproximando-se de uma rotina que, até então, observava principalmente sob a perspectiva empresarial.

Existe uma ironia quase cinematográfica nessa passagem.

O homem que construiria sua carreira em torno do movimento precisou experimentar uma limitação física para descobrir uma nova maneira de olhar para seu negócio.

Talvez a vida tenha dessas delicadezas inesperadas. Às vezes, ela nos obriga a diminuir o ritmo justamente quando precisamos enxergar alguma coisa que a pressa não nos permitia perceber.

Durante aquele período, Edgard passou a observar mais atentamente o funcionamento da academia, a experiência dos alunos e as dificuldades da operação. Decidiu se dedicar integralmente ao setor, mas os resultados iniciais não foram exatamente aqueles que esperava.

E é aqui que a história deixa de ser apenas sobre empreendedorismo.

Porque existe uma enorme diferença entre acreditar em um sonho quando ele parece promissor e continuar acreditando quando ele exige mais do que imaginávamos oferecer.

O fracasso de uma expectativa tem uma maneira particularmente cruel de nos fazer duvidar de nós mesmos. Ele nos obriga a encarar aquilo que ninguém vê nas fotografias das grandes conquistas: as decisões solitárias, o medo de insistir, o desconforto de admitir que alguma coisa precisa mudar.

Edgard poderia ter interpretado os resultados insatisfatórios como um sinal para abandonar o negócio. Preferiu transformá-los em aprendizado.

Estudou outros modelos, observou o mercado e buscou compreender o que precisava ser feito de maneira diferente. Mais tarde, apostou em uma unidade da Bio Ritmo na Avenida Paulista, com uma proposta capaz de atender também às pessoas que encontravam na falta de tempo uma barreira para se exercitar.

A iniciativa funcionou. A empresa cresceu, novas unidades surgiram e, com elas, uma percepção começou a ganhar força: talvez o futuro daquele mercado estivesse em derrubar as barreiras que afastavam tantas pessoas das academias.

Não bastava criar espaços melhores. Era preciso repensar quem poderia frequentá-los.

Edgard continuou olhando para além do que já havia construído. Participou de congressos internacionais, conheceu outras experiências de gestão e começou a desenhar um modelo capaz de ampliar o acesso à atividade física.

Em 2008, nasceu a Smart Fit.

O que poderia ser apenas mais uma marca de academias carregava uma proposta que mudaria a dinâmica do setor: oferecer uma estrutura de qualidade por preços mais acessíveis, com eficiência operacional e potencial de expansão.

Era, em essência, uma maneira de aproximar um serviço antes associado a determinados públicos de uma parcela muito maior da população.

E há algo profundamente interessante nessa escolha.

Em um mundo no qual tantas marcas constroem prestígio pela exclusividade, Edgard apostou na escala. Entendeu que o valor de uma experiência não precisava estar limitado à dificuldade de alcançá-la.

Talvez o verdadeiro privilégio, em determinadas circunstâncias, seja justamente deixar de ser privilégio.

A Smart Fit cresceu para além do Brasil, consolidou sua presença na América Latina e, em 2021, protagonizou um marco no mercado financeiro brasileiro ao realizar sua abertura de capital na B3.

Mas, se os números ajudam a dimensionar o empresário, é seu manifesto pessoal que nos permite compreender um pouco mais sobre o homem.

Nele, Edgard apresenta a mudança como o elemento central de sua filosofia de vida. Não apenas aquela que escolhemos conscientemente, mas também a que chega sem convite, por meio dos erros, das dificuldades e das circunstâncias que escapam ao nosso controle.

Há uma diferença silenciosa entre essas duas formas de transformação. Uma nasce da coragem de partir. A outra, da necessidade de continuar.

Ambas exigem que deixemos alguma coisa para trás.

E talvez seja por isso que sua trajetória provoque uma reflexão que ultrapassa os limites do mundo empresarial. Porque todos nós, em algum momento, já estivemos diante de uma versão da vida que parecia não servir mais. Um trabalho que perdeu o sentido. Um sonho que mudou de forma. Uma certeza que deixou de existir.

E quantos de nós tivemos coragem de começar novamente?

Em seu manifesto, Edgard escreve: “Uma vida que vale a pena é aquela que a gente deseja”.

É uma frase pequena, mas que carrega uma pergunta imensa: estamos realmente construindo a vida que desejamos ou apenas nos acostumando com aquela que aprendemos a aceitar?

Talvez seja essa a diferença entre uma existência bem-sucedida aos olhos dos outros e uma existência verdadeiramente realizada.

A primeira pode ser reconhecida por títulos, conquistas e patrimônio. A segunda exige algo que nenhuma conta bancária é capaz de garantir: a liberdade de continuar escolhendo.

Edgard construiu sua trajetória empresarial atravessando setores, reconhecendo erros e reformulando caminhos. De um laboratório à indústria da moda. Da confecção de roupas à primeira Bio Ritmo. De uma academia em São Paulo à expansão internacional da Smart Fit.

Seu percurso não foi uma linha reta. Foi uma sucessão de transformações. E isso talvez explique por que sua história encontra tanto significado justamente no universo fitness.

Porque, se observarmos com um pouco mais de sensibilidade, perceberemos que ninguém entra em uma academia carregando apenas uma mochila e uma garrafa de água.

As pessoas carregam expectativas.

A mulher que deseja recuperar a confiança. O homem que decidiu cuidar melhor da saúde. Alguém que procura reencontrar a própria disciplina depois de um período difícil. Ou simplesmente uma pessoa que, entre tantos compromissos e responsabilidades, encontrou naquele espaço alguns minutos para pertencer exclusivamente a si mesma.

Não são apenas músculos sendo trabalhados. São rotinas sendo reconstruídas, limites sendo descobertos e pequenas promessas pessoais que, dia após dia, tentamos cumprir.

É claro que uma empresa não pode se apropriar dessas conquistas individuais. Elas pertencem a quem acorda cedo, enfrenta o cansaço, supera a própria resistência e escolhe voltar no dia seguinte.

Mas existe um mérito particular em criar um negócio que amplia as possibilidades para que essas histórias aconteçam.

O homem que passou a vida transformando seus próprios caminhos ajudou a construir espaços nos quais outras pessoas também buscam suas transformações.

E talvez seja essa a conexão mais emocionante de toda a sua trajetória.

Costumamos celebrar os grandes empresários quando alcançam o topo. Gostamos de descobrir quanto vale uma companhia, quantos países ela conquistou e quantas pessoas trabalham para transformar uma ideia em realidade.

Mas raramente nos perguntamos quantas versões de uma mesma pessoa precisaram existir para que aquela conquista se tornasse possível.

Quantos sonhos foram reformulados? Quantas certezas precisaram desaparecer? Quantas vezes foi necessário deixar para trás a segurança de um caminho conhecido para apostar em alguma coisa que ainda não tinha nome?

Talvez jamais seja possível traduzir essas respostas em números. E, talvez sejam elas que revelem o verdadeiro tamanho de uma trajetória.

Ao olhar para Edgard Corona, encontramos um empresário que construiu uma grande companhia. Mas, ao olhar para a filosofia que orienta sua história, encontramos algo que qualquer pessoa, independentemente de profissão, idade ou condição financeira, pode reconhecer: a necessidade humana de continuar evoluindo.

Porque o sucesso, quando reduzido apenas ao ponto de chegada, corre o risco de esconder tudo aquilo que realmente o tornou significativo. E a vida, felizmente, não é uma competição para descobrir quem chega primeiro. É uma sucessão de oportunidades para decidir quem desejamos nos tornar.

Reprodução Instagram Edgard Corona.

Talvez nunca estejamos inteiramente prontos. Talvez sempre exista uma escolha que nos assuste, um caminho que ainda não conhecemos ou uma versão de nós mesmos esperando a coragem necessária para existir. E tudo bem.

Algumas das histórias mais extraordinárias não começam quando finalmente encontramos todas as respostas, mas quando decidimos seguir em frente apesar das perguntas.

No fim, Edgard Corona construiu um negócio dedicado a transformar corpos. Mas sua trajetória nos oferece uma reflexão que vai muito além de qualquer academia.

De que adianta conquistar o mundo inteiro se, pelo caminho, perdermos a coragem de transformar a própria vida?

Talvez o maior patrimônio de um homem não seja aquilo que ele conseguiu construir, mas a pessoa que precisou se tornar para chegar até ali.

E, se existe uma lição que podemos levar dessa história, é que nunca estamos velhos demais para recomeçar, realizados demais para mudar ou bem-sucedidos demais para aprender.

Porque músculos podem ser construídos. Impérios podem ser erguidos. Fortunas podem mudar de mãos.

Mas a coragem de recomeçar, mesmo quando já se tem tanto a perder, talvez seja a forma mais rara de riqueza.

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