A revolução que começa no corpo e chega à mesa

Por: Dra Zila Abdala – clínica geral, gastroenterologista e especialista em estilo de vida da Tria de Rosa

As chamadas canetas emagrecedoras estão provocando mudanças que vão muito além da balança. À medida que mais mulheres conseguem perder peso com o auxílio desses medicamentos, novos comportamentos começam a surgir na academia, na alimentação, nos consultórios médicos e até nos restaurantes.

Para muitas mulheres, especialmente após os 40 anos, emagrecer deixou de significar apenas ver um número menor na balança. Existe uma preocupação cada vez maior em preservar e ganhar massa muscular, melhorar a composição corporal e envelhecer com mais saúde e autonomia.

Isso explica o crescimento da procura por atividades físicas, principalmente aquelas voltadas para força e resistência, além do acompanhamento nutricional e do uso criterioso de suplementos. Afinal, uma perda de peso saudável não deve significar simplesmente perder quilos, mas buscar uma melhor composição corporal, preservando o máximo possível de massa muscular.

E os efeitos dessa transformação já começam a aparecer em outros setores.

A procura por cirurgias plásticas reparadoras e por procedimentos destinados à melhora do contorno corporal também acompanha esse novo momento. Ao mesmo tempo, restaurantes começam a perceber que seus clientes estão mudando. Porções menores, menor consumo de sobremesas e redução do álcool passam a fazer parte das novas escolhas à mesa.

Segundo levantamentos do setor, cerca de 65% dos restaurantes pesquisados já identificaram redução no consumo de bebidas alcoólicas e sobremesas, além de maior procura por porções menores, algumas delas inexistentes anteriormente nos cardápios. Restaurantes por quilo também relatam redução no volume de alimentos consumidos.

No supermercado, a transformação aparece de outra maneira. O consumidor que está tentando manter o peso parece estar mais atento à qualidade daquilo que coloca no prato: são relatados aumentos no consumo de vegetais e legumes, alimentos integrais ricos em fibras e sementes, além de fontes de proteína.

Mas há uma questão ainda mais interessante: o comportamento de uma mulher raramente fica restrito a ela mesma.

Quando uma mulher muda sua maneira de comer, se exercitar e cuidar da saúde, frequentemente influencia também os hábitos de quem vive ao seu redor. Filhos, companheiros e familiares passam a experimentar novos alimentos, frequentar restaurantes diferentes e, muitas vezes, incorporar à rotina atividades físicas e outras práticas de autocuidado.

O impacto financeiro também é diferente de acordo com a realidade de cada família. Para algumas mulheres, o investimento na medicação vem acompanhado de gastos com academia, nutricionista, consultas médicas e alimentação diferenciada. Para outras, a aquisição do medicamento exige reorganizar o orçamento e reduzir despesas com lazer ou pequenos prazeres. Em famílias com menor poder aquisitivo, o tratamento pode significar cortes ainda mais significativos no orçamento doméstico.

Isso nos mostra que as canetas emagrecedoras não representam apenas uma mudança na medicina. Elas fazem parte de uma transformação comportamental e econômica que está criando um novo consumidor: alguém que deseja não apenas emagrecer, mas sustentar esse resultado e viver de maneira mais saudável.

Restaurantes, supermercados, academias, indústria de alimentos, mercado de suplementos, profissionais de saúde e tantos outros segmentos precisarão acompanhar essa mudança.

Porque talvez a verdadeira revolução das canetas não esteja apenas na quantidade de quilos que elas ajudam a eliminar. Ela está no que acontece depois que o peso diminui: na relação com a comida, com o corpo, com o movimento e, principalmente, com a própria saúde.

 

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