Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa
Há mulheres preocupadas porque perderam a libido. Algumas já investigaram os hormônios, compraram suplementos, trocaram o pijama e até marcaram um fim de semana romântico. Chegam ao hotel depois de organizar os filhos, responder mensagens do trabalho, conferir se a mãe tomou os remédios e lembrar ao companheiro, pela terceira vez, onde está o carregador dele. Então se deitam e descobrem, com alguma culpa, que o desejo não compareceu.
Talvez ele não tenha recebido o convite. Ou talvez tenha olhado para a programação e decidido ficar em casa.
Quando uma mulher percebe que sua vontade sexual diminuiu, geralmente dirige a suspeita contra si mesma. O que há de errado comigo? Será a menopausa? A idade? Falta de amor? Algum defeito que ainda não descobri?
A libido, porém, não vive isolada do restante da vida. Ela é influenciada por hormônios, saúde física, medicamentos, qualidade do sono, estado emocional, relação afetiva, experiências anteriores e pelas condições em que o encontro acontece. Não existe um único exame capaz de explicar tudo, assim como não existe uma solução que funcione para todas.
A perimenopausa chega sem pedir licença. O estrogênio diminui, o corpo se reorganiza, e o desejo, a lubrificação e o conforto durante a relação podem ficar no rastro dessa mudança. Ondas de calor, noites mal dormidas, um corpo que parece ter novas regras, tudo isso participa da história. Alguns antidepressivos e outros medicamentos também reduzem a resposta sexual, e nem sempre a mulher associa a pílula que tomou no café da manhã ao fade-out que sentiu à noite. Depressão, ansiedade, dor, cansaço persistente e certas condições clínicas merecem investigação.
Mas nem toda baixa libido começa nos hormônios.
Às vezes, o desejo tenta sobreviver em uma rotina na qual a mulher trabalha, cuida da casa, acompanha os filhos, preocupa-se com os pais e administra o funcionamento emocional de quase todos ao redor. Ao fim do dia, esperam que ela mude de função rapidamente e se torne disponível, descansada e interessada.
O corpo, aparentemente pouco comprometido com essa programação, pode não colaborar.
Também é preciso olhar para a relação. É difícil desejar quando existe ressentimento acumulado, falta de conversa, ausência de carinho fora da cama ou a sensação de que o sexo se tornou mais uma tarefa a cumprir. Uma mulher pode amar seu companheiro e, ainda assim, não desejar a forma como a intimidade acontece entre eles.
Outro equívoco frequente é imaginar que o desejo sempre deve surgir espontaneamente, como nos primeiros meses de uma paixão. Para muitas mulheres, especialmente em relações longas, ele pode aparecer depois que a aproximação começa. É o chamado desejo responsivo. A vontade não surge necessariamente antes do beijo, do toque ou da conversa. Ela pode ser despertada por um contexto de segurança, intimidade, tempo e estímulo adequado.
Pense na mulher que não sentiu vontade o dia inteiro. Não sentiu, e isso é fato. Mas aceitou sentar no sofá ao lado de alguém, aceitou uma mão no cabelo, aceitou ficar. E em algum momento, sem aviso prévio, algo mudou. Não foi um clique dramático, foi um aquecimento lento, como uma panela que ninguém vigia e que, de repente, está fervendo. Isso é desejo responsivo: a vontade que não antecipa, mas responde.
Isso não significa que a mulher deva aceitar uma aproximação que não deseja. Significa apenas que não sentir uma vontade repentina, no meio de uma terça-feira exaustiva, não prova que sua sexualidade desapareceu.
Também não existe uma frequência sexual correta. Algumas mulheres vivem bem com menos atividade sexual. Outras sofrem com a mudança e sentem falta da própria capacidade de desejar. O sofrimento, e não a comparação com amigas, pesquisas ou expectativas do parceiro, é um dos principais sinais de que vale procurar ajuda.
A avaliação pode envolver ginecologista, psiquiatra, psicoterapeuta, sexóloga ou outros profissionais, conforme cada situação. Dor durante a relação, secura vaginal, alteração persistente do desejo, sintomas depressivos e mudanças importantes após o início de um medicamento não devem ser tratados apenas com resignação.
Talvez sua libido não tenha desaparecido. Talvez esteja reagindo às condições que encontrou.
Antes de procurar um defeito em si mesma, experimente fazer outras perguntas. Como está meu corpo? Tenho dormido? Sinto dor? Ainda existe intimidade em minha relação? O sexo se tornou uma cobrança? Conheço o que me dá prazer? Há espaço para que eu seja alguém além daquela que resolve tudo?
A libido não é uma funcionária indisciplinada que precisa ser advertida por baixa produtividade. Ela é uma resposta sensível ao modo como o corpo, a mente e a relação estão vivendo.
Talvez a pergunta não seja apenas por que deixei de desejar.
Talvez seja: o que precisaria mudar para que o desejo encontrasse lugar na vida que levo?