Uma análise sobre os registros de escassez e a busca pela abundância possível
Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa
Há pessoas que guardam a melhor louça para uma ocasião especial. Economizam o perfume favorito, adiam a viagem, deixam a roupa nova esperando no armário. Trabalham além do necessário, descansam menos do que precisam e sentem certo desconforto quando a vida oferece algo bom como se o agora nunca fosse exatamente o momento certo.
Por trás desses gestos, existe uma sensação antiga e persistente: é preciso guardar, porque amanhã pode faltar.
A escassez costuma ser associada ao dinheiro, mas seu alcance é muito maior. Podemos viver com medo de que faltem tempo, amor, reconhecimento, saúde, oportunidades, disposição ou segurança. Podemos acreditar que não há espaço para todos e que, por isso, precisamos disputar. Ou imaginar que as boas fases são breves demais e que, ao relaxar, algo será inevitavelmente perdido.
Nem toda escassez é imaginária. A falta existe e deixa marcas. Há quem tenha crescido em casas onde tudo era contado. Quem conheceu instabilidade, perda, ausência de cuidado ou a insegurança de não saber o que viria no dia seguinte. E há escassezes mais silenciosas: pouco afeto, atenção que precisava ser merecida, a aprendizagem de não pedir para não incomodar.
Essas experiências não desaparecem apenas porque a vida muda.
O tempo passa, os recursos aumentam, as circunstâncias se transformam, mas uma parte de nós continua reagindo como se o perigo ainda estivesse à porta. A falta termina do lado de fora, mas permanece ativa por dentro. É assim que uma experiência se torna um registro.
E esse registro molda a forma como percebemos o mundo. Diante de uma oportunidade, vemos primeiro o risco. Quando alguém oferece ajuda, imaginamos o custo oculto. Quando recebemos reconhecimento, desconfiamos. Quando surge um desejo, tratamos de reduzi-lo antes mesmo de considerá-lo.
A escassez também aparece na relação com o tempo. Vivemos correndo porque sentimos que ele nunca será suficiente. Enchemos a agenda, antecipamos problemas,tentamos controlar tudo. Descansar gera culpa, porque aprendemos a associar valor pessoal à produtividade. Mesmo parados, seguimos em alerta.
Nos relacionamentos, o medo da falta assume formas contraditórias. Alguns aceitam menos do que precisam para não ficarem sem nada. Outros exigem garantiasimpossíveis. Há quem permaneça em relações esvaziadas por medo de não encontrar outra possibilidade e há quem se afaste antes de se envolver, tentando evitar uma perda que ainda não aconteceu.
Nas mulheres, esse registro encontra muitas vezes terreno fértil em uma educação baseada na renúncia. Muitas aprenderam que ser boa é precisar de pouco, oferecer muito e não ocupar espaço demais. Tornaram-se hábeis em cuidar, sustentar e resolver, mas nem sempre em receber. Percebem o que falta aos outros, mas demoram a reconhecer o que lhes falta.
Receber pode ser mais difícil do que dar.
Receber exige admitir necessidade. Exige suportar não estar no controle. Exige usufruir sem justificativa. Para quem vive sob a lógica da escassez, isso pode gerar culpa, desconfiança e até a vontade de devolver o que chegou.
Por isso, algumas mulheres conquistam, mas não desfrutam. Alcançam algo desejado e já buscam o próximo passo. Compram algo e sentem remorso. Descansam e logo criam outra obrigação. Recebem um elogio e o anulam com explicações, como se a satisfação fosse perigosa.
Falar de prosperidade não é falar apenas de dinheiro. É reconhecer recursos, sustentar vínculos, aceitar apoio, fazer escolhas, permitir prazer e viver sem estar constantemente se preparando para a perda.
Isso não significa ignorar dificuldades reais ou romantizar a vida. Existem desigualdades, perdas e limitações que não podem ser reduzidas a uma questão de atitude. Mas existe uma pergunta que permanece: quanto das nossas escolhas atuais ainda está sendo guiado por faltas antigas?
Às vezes, passamos tanto tempo tentando evitar a escassez que também evitamos a abundância possível. Protegemos o pouco, mas não abrimos espaço para o que poderia chegar. Mantemos estratégias de sobrevivência mesmo quando já não estamos mais naquele cenário.
Reconhecer isso não é negar a própria história. É honrá-la sem ser governada por ela.
Talvez o primeiro movimento seja observar onde a escassez aparece: na dificuldade de pedir, na culpa ao descansar, no medo de investir em si, na tendência a aceitar menos, na necessidade de acumular, na sensação de que o melhor sempre é para os outros.
Depois, vem a pergunta mais importante: isso ainda é verdade hoje?
Nem tudo o que nos protegeu no passado precisa continuar nos guiando no presente. A expansão começa quando deixamos de organizar a vida inteira em torno do medo de perder. Ela pode ser simples: usar o que sempre foi guardado, aceitar ajuda sem compensar imediatamente, descansar antes do esgotamento, reconhecer um desejo sem diminuí-lo.
Talvez prosperar seja, antes de tudo, permitir que o suficiente seja reconhecido quando ele chega.
E você? Em que parte da sua vida ainda vive como se não houvesse o suficiente?