Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa
Talvez essa seja uma das perguntas mais fundamentais e, paradoxalmente, uma das mais difíceis que uma mulher pode se fazer.
Passamos grande parte da vida aprendendo a olhar para fora.
Aprendemos a cuidar.
A antecipar necessidades.
A perceber nuances emocionais que ninguém mais vê: o cansaço disfarçado, a tristeza silenciada, a preocupação que mal se confessa.
Aprendemos, sobretudo, a sustentar.
Sustentamos filhos.
Relacionamentos.
Famílias inteiras.
Equipes de trabalho.
Empresas.
Sustentamos sonhos, muitas vezes sonhos que nem são os nossos. E fazemos isso com tamanha competência que o trabalho invisível se torna quase imperceptível, embora nunca indolor.
A sociologia até criou um nome para parte desse fenômeno: mankeeping ,a responsabilidade silenciosa de manter vivas as conexões sociais ao redor dos homens.
São as mulheres que lembram aniversários, organizam encontros, preservam vínculos, criam oportunidades para que as relações continuem existindo.
Mas o mankeeping é apenas a superfície.
A verdade é que muitas mulheres não cuidam apenas das conexões dos homens.
Elas cuidam das conexões de todos.
Transformam-se nas guardiãs emocionais da família.
Tecelãs de vínculos.
As que mantêm a trama humana unida quando tudo ameaça se desfazer.
E é aqui que nasce a exaustão mais profunda.
Não a exaustão da agenda cheia, da lista de tarefas infinita ou da sobrecarga mental, embora tudo isso pese. Mas a exaustão de quem oferece pertencimento continuamente sem encontrar espaços onde também possa recebê-lo.
A Medicina do Estilo de Vida reconhece a conexão social como um pilar essencial da saúde. Mas existe uma diferença radical entre estar cercada de pessoas e sentir-se verdadeiramente amparada por elas.
Muitas mulheres estão cercadas. Poucas estão acolhidas.
Muitas cuidam. Poucas recebem cuidado.
Muitas escutam. Poucas encontram um ouvido que realmente as ouça.
Por isso tantas chegam à segunda metade da vida com uma sensação que não sabem nomear.
Não é solidão. Ao menos não no sentido óbvio.
É a estranha invisibilidade de quem foi tão necessária ao mundo que acabou desaparecendo de si mesma.
Não porque não sejam amadas. Mas porque passaram tanto tempo sustentando o mundo ao redor que deixaram de construir lugares onde elas próprias pudessem repousar.
Talvez seja hora de inverter a pergunta.
Em vez de se perguntar apenas quem precisa de você, pergunte: Quem está presente para você?
Quem conhece suas dores antes que você as esconda? Quem percebe quando você não está bem, mesmo quando você disfarça? Quem sustenta você enquanto você sustenta o mundo?
Porque força não é carregar tudo sozinha.
Força também é ter para onde voltar quando o peso se torna grande demais.
E talvez uma vida verdadeiramente saudável não seja aquela em que sustentamos todos os vínculos, mas aquela em que também encontramos pessoas capazes de nos sustentar.