Uma conexão singular: Maternidade, herança genética e o fio invisível que une gerações

Por: Dra Kátia Pegos – Psiquiatra e especialista em saúde mental da Tría de Rosa

O espelho, por vezes, é um portal para o passado. Com uma frequência cada vez maior, vejo-me repetindo frases, entonações ou gestos que, por um breve segundo, me fazem parar e reconhecer uma presença familiar. São as mãos que se cruzam de um jeito específico, o modo de inclinar a cabeça ao ouvir uma confidência ou aquela expressão de surpresa que eu acreditava ser exclusivamente minha. “Você está ficando igualzinha à sua mãe”, dizem-me os amigos e familiares. No início, a frase soava como uma observação casual, mas hoje, próximo a completar cinco anos de sua partida, ela ressoa como um abraço reconfortante que atravessa o tempo.


Suponho que a saudade tenha o poder de ativar a parte dela que vive em mim. Não se trata apenas de uma herança comportamental ou de uma homenagem consciente à sua memória. Há algo mais profundo, algo que reside no silêncio das minhas células e na estrutura do meu código genético. A ausência física de uma mãe é um vazio que nunca se preenche totalmente, mas a descoberta de que nunca estivemos, de fato, separadas, traz uma nova dimensão ao luto e à celebração da vida. Somos, em essência, um mosaico vivo de quem veio antes de nós.

1 – A Ciência da Conexão: O Quimerismo e a Matryoshka Biológica:
Durante muito tempo, a poesia e a biologia pareceram caminhar em trilhas opostas. No entanto, a ciência moderna tem revelado que a conexão entre mãe e filho é muito mais literal do que poderíamos imaginar. Descobri, fascinada, que cada um de nós é uma quimera. Na mitologia, a quimera era um ser composto por partes de diferentes animais; na genética, o termo descreve um organismo que contém células com genótipos distintos.


Minha filha, que é médica geneticista, foi quem “bateu o martelo” e confirmou essa realidade que me emociona: durante a gestação, ocorre uma troca bidirecional de células através da placenta. Células da mãe migram para o feto e células do feto migram para a mãe. O que é verdadeiramente extraordinário é que essas células maternas podem persistir no corpo do filho por décadas, integrando-se a órgãos como o coração, o fígado e até o cérebro. Esse fenômeno, conhecido como microquimerismo materno, significa que, em um nível celular muito real, minha mãe ainda habita o meu corpo. Ela não está apenas na minha memória; ela está no meu pulsar.


“Nós nunca estamos verdadeiramente sós. Carregamos em nossa biologia o testemunho vivo de nossa linhagem, um arquivo celular que ignora a barreira da morte.”


Além do microquimerismo, há uma imagem biológica que considero uma das mais poderosas representações da continuidade feminina. Imagine que, quando minha avó estava grávida de cinco meses do feto que um dia seria minha mãe, o óvulo que um dia se transformaria em mim já se encontrava no ovário desse feto. Isso significa que, por um período de tempo, nós três: avó, mãe e eu, ocupamos simultaneamente o mesmo ambiente biológico. Estávamos contidas umas nas outras, como bonecas russas (matryoshkas), compartilhando nutrientes, hormônios e experiências sensoriais primordiais. Essa tríade biológica estabelece um vínculo que precede o pensamento, a linguagem e até o nascimento.

2- Memória Emocional: O Chamado do Vínculo Primário
Recentemente, essa mesma filha geneticista me enviou um post de uma rede social que me fez refletir por dias. Nele, um médico de Centro de Terapia Intensiva (CTI) relatava uma observação comum em seus anos de prática: poucas horas antes de falecer, independentemente da idade ou da trajetória de vida, muitos pacientes pronunciam uma única palavra: “Mãe”.


A explicação científica sugerida é que, em situações de estresse emocional intenso ou diante da proximidade da morte, a amígdala a região cerebral ligada à memória emocional, ao medo e à insegurança seria intensamente ativada. Nesse momento crítico, o cérebro faria uma espécie de “varredura” em busca de memórias significativas e vínculos que representem segurança absoluta. E, para a maioria de nós, esse porto seguro é a figura materna.


É claro que, em uma família onde a ciência é o prato principal das reuniões, as perspectivas divergem. Minha outra filha, neurologista, logo ponderou com seu rigor acadêmico habitual. Ela questionou a falta de evidências sólidas de que a amígdala estivesse exatamente 11 vezes mais ativa, ou a ausência de um estudo clínico controlado que comprovasse que 100% dos pacientes chamam pela mãe. Para ela, a mente científica exige dados replicáveis e referências bibliográficas reconhecidas.


Contudo, para além do rigor estatístico, o que mais fez sentido para mim foi a verdade psicológica poderosa por trás desse relato. No limite da existência, o ser humano não busca o sucesso acumulado, os títulos conquistados ou a performance alcançada. Buscamos o vínculo. Buscamos a segurança primária que nos foi dada antes mesmo de sabermos quem éramos. A mãe, nesse contexto, deixa de ser apenas uma pessoa e passa a ser um símbolo de pertencimento e proteção incondicional. É o retorno ao início para conseguir enfrentar o fim.

3- A Jornada da Maternidade: Desafios e Espelhamentos
Tornar-me mãe foi, sem dúvida, a experiência mais grandiosa e, simultaneamente, a mais desafiadora da minha vida. Rapidamente entendi que, por mais livros que leiamos ou conselhos que ouçamos, nunca estamos totalmente preparadas. Cada filho traz consigo um universo de demandas, temperamentos e peculiaridades que tornam a jornada absolutamente imprevisível. Não existe um manual, pois o “objeto” de estudo é uma alma em constante evolução.


Hoje, olhando para minhas filhas, a geneticista e a neurologista, sinto um orgulho que transborda a biologia. Elas são mulheres fortes, inteligentes e questionadoras. Acredito piamente que cada filho e cada mãe estão no devido lugar para a jornada que se propuseram a percorrer juntos. Elas me ensinam diariamente sobre o mundo e sobre mim mesma, desafiando minhas certezas e expandindo meus horizontes. Sou imensamente grata pelas parceiras maravilhosas com quem fui agraciada nesta vida.


A maternidade é um exercício de humildade. É reconhecer que somos apenas um elo em uma corrente infinita. Lembro-me com carinho de uma frase da minha caçula, quando ela tinha cerca de cinco anos. Com a sabedoria que só as crianças possuem, ela me disse: “Mamãe, se você for um dez( traduzindo: um décimo) para os meus filhos do que a vovó é para mim, já vai ser ótimo”. Naquele momento, entendi que o padrão de excelência não era a perfeição, mas o amor e a presença que minha mãe havia plantado nela.

4- O Ciclo Contínuo: Esperança e Renovação:
A vida não para, e o fluxo das gerações segue seu curso natural. Hoje, aguardo com uma ansiedade doce a chegada dos netos. Será nesse momento que poderei, finalmente, me testar na conclusão da minha caçula. Serei a avó que minha mãe foi? Terei a mesma paciência, o mesmo olhar acolhedor, a mesma capacidade de transformar um dia comum em uma memória eterna?


A conexão singular que compartilhamos com nossas mães e filhas é o que nos mantém ancoradas em um mundo cada vez mais volátil. É uma herança que não se perde com o tempo, pois está escrita no DNA e gravada na alma. A cada gesto que repito dela, a cada célula que carrego, sinto que minha mãe continua aqui, guiando-me silenciosamente enquanto eu guio as minhas próprias filhas.


Neste Dia das Mães, convido você a olhar para o espelho e para dentro de si. Reconheça as marcas, os trejeitos e as células que não são apenas suas. Celebre a quimera que você é. Honre as que vieram antes e prepare o caminho para as que virão. Pois, no fim das contas, o que realmente importa é o vínculo que nos une e a segurança de saber que nunca estamos sozinhas.


Feliz Dia das Mães!

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