O mar, um vestido preto e a liberdade de ser: Chanel Cruise 2027
Há coleções que nos vestem. E há aquelas que nos transportam. A Cruise 2027 da Chanel pertence, sem dúvida, à segunda categoria como um convite silencioso para caminhar à beira-mar e, entre uma rajada de vento e outra, revisitar aquilo que realmente importa.
Em sua quinta coleção para a maison, Matthieu Blazy não apenas olhou para o passado, ele mergulhou nele. E escolheu fazê-lo no lugar onde tudo começou: Biarritz. Foi ali que Gabrielle Chanel encontrou algo mais valioso que tendências: liberdade.
E talvez seja curioso pensar que essa história começa com um gesto simples. Um vestido preto.
O icônico “little black dress”, que completa 100 anos em 2026, abriu o desfile em uma interpretação quase fiel ao original. Sem exageros. Sem ruídos. Apenas a elegância crua de uma ideia que atravessou o tempo. Porque, às vezes, o verdadeiro luxo não está em reinventar, mas em reconhecer o que já nasceu eterno.

A resposta talvez esteja nos detalhes. Nos tricôs com barras em zigue-zague que parecem saídos diretamente dos arquivos. No conjunto preto e branco usado por Bhavitha Mandava, com os dois Cs invertidos integrados à própria construção da peça, uma reprodução fiel de um croqui dos anos 1930. Nas referências aos primeiros conjuntos de jérsei de 1913, na influência das linhas retas da Art Déco e, acima de tudo, na leveza.


Leveza como linguagem. Como escolha. Como herança.
Apresentado em um cassino com vista para o mar, o desfile parecia mais um estado de espírito do que um evento. Modelos com cabelos molhados, como se tivessem acabado de sair do oceano. Algumas descalças, carregando os sapatos nas mãos. Outras atravessando a passarela com a naturalidade de quem entende que elegância não precisa de esforço.
E então, quase como um sussurro moderno, o casting trouxe mulheres de diferentes idades e uma grávida com a barriga à mostra em um tailleur de tweed, com sapatinhos de bebê pendurados na bolsa. Um detalhe delicado, com aquele toque de humor que inevitavelmente remete ao espírito provocador de Karl Lagerfeld.
Entre lenços de seda transformados em looks, maiôs combinados com alfaiataria fluida e o retorno de best sellers como a camisa Charvet agora com renda guipire, a coleção constrói um guarda-roupa que flutua entre o passado e o desejo contemporâneo. O jeans, nova obsessão da maison, aparece em conjuntos suaves, enquanto o tricô se reinventa em vestidos alongados e releituras de trajes de banho vintage.
E há listras. Muitas listras. Inspiradas na paisagem basca, nos guarda-sóis que pontuam a orla de Biarritz, no ritmo visual de uma cidade moldada pelo vento e pelo tempo.
Mas talvez o momento mais poético esteja no final. Dois vestidos inspirados em sereias, uma referência que nasceu da infância de Matthieu e ganhou forma após ele descobrir um mural art déco em um farol local, onde duas figuras míticas entrelaçam suas caudas como os Cs do logo da marca.
Romântico? Sim. Mas também profundamente simbólico.
Porque foi em Biarritz, em 1915, ao lado de Arthur Edward Capel, que Gabrielle Chanel não apenas abriu sua maison, mas também iniciou uma revolução silenciosa. Em plena guerra, enquanto Paris se tornava instável, ela escolheu o mar. Escolheu o movimento. Escolheu libertar o corpo feminino de estruturas rígidas usando materiais improváveis como o jérsei, reinterpretando o tweed masculino e transformando um simples vestido preto em manifesto.
E talvez seja exatamente esse o ponto onde Matthieu Blazy toca com mais precisão.
Ele não está apenas recriando roupas. Está ressignificando códigos. Expandindo possibilidades. Questionando, com delicadeza, o que entendemos por luxo, por identidade, por permanência.
No fim, entre ondas, memórias e silhuetas que dançam com o vento, fica uma pergunta: Se a moda é feita de movimento… será que o verdadeiro estilo não é, simplesmente, saber para onde e para quem queremos voltar?



