Grandes espetáculos nunca acontecem por acaso. Eles são escritos em detalhes invisíveis, costurados em reuniões silenciosas, decisões rápidas e olhares atentos que poucos percebem. No fim das contas, todo grande espetáculo precisa de alguém que conduza a orquestra, mesmo que ninguém veja o movimento de suas mãos.
15 de fevereiro, Rio de Janeiro.
A pauta parecia simples, mas carregava algo quase poético: olhar para aqueles que fazem a festa acontecer. Aqueles que, curiosamente, ganham um protagonismo silencioso justamente no mês em que o país inteiro decide celebrar em voz alta.
Porque o Carnaval sempre foi sobre espetáculo. Sobre brilho, ritmo e multidões. Mas, como em qualquer grande apresentação, existe sempre alguém nos bastidores organizando cada detalhe, conduzindo cada movimento com precisão quase invisível.
Um maestro.
E foi ali, observando o movimento intenso de uma das áreas mais vibrantes da Sapucaí, que esbarramos em uma figura que, sem saber, se tornaria o assunto dessas linhas.
Santiago Vieira.

Enquanto milhares de pessoas ocupavam a avenida, algo chamou atenção. Grandes eventos têm algo em comum com a música clássica: à primeira vista, tudo parece espontâneo. A energia, o ritmo, a emoção. Mas por trás de cada momento existe alguém coordenando tudo com uma lógica silenciosa, quase coreografada.
E Santiago,, parecia exatamente isso. Um maestro conduzindo uma orquestra que não toca violinos, mas experiências.
Bem, sempre que vejo grandes negócios, me faço a mesma pergunta: qual teria sido o sonho de infância daquele CEO? Talvez porque eu goste de imaginar adultos ainda conversando, em silêncio, com suas versões crianças.
E então perguntei isso a Santiago.
“Quando eu era criança, não tinha um sonho específico de profissão”, respondeu. “Mas sempre tive uma inquietação.”
Inquietação.
Talvez essa seja a palavra mais bonita para definir pessoas que nasceram grandes demais. Pessoas que transformam desconforto em movimento, curiosidade em destino.
“Eu queria construir coisas grandes. Criar algo que conectasse pessoas, que gerasse impacto. Eu não sabia exatamente o quê. Mas sempre soube o porquê.” diz Santiago.
E talvez seja isso que diferencia certos caminhos. Enquanto algumas pessoas passam a vida inteira tentando encontrar propósito, outras parecem nascer segurando uma espécie de bússola invisível. Algo silencioso, quase mágico, que as empurra na direção do que ainda nem existe.
O primeiro movimento do maestro
Curiosamente, sua história não começou no entretenimento. Vindo de uma família de juristas, Santiago chegou a iniciar o curso de Direito. Mas, como acontece com muitos caminhos que não são os nossos, algo simplesmente não encaixou.
Foi na administração que ele encontrou o próprio compasso. Ali nasceu não apenas uma formação, mas também uma inquietação empreendedora que logo se transformaria em ação.
Ainda durante a faculdade, abriu sua primeira academia. Não seria uma academia qualquer, seria uma academia boutique. Naquele momento, o CrossFit começava a ganhar força no universo fitness, e Santiago enxergou ali uma oportunidade.
Buscando referências, viajou até a Califórnia, visitou academias, observou modelos de negócio, estudou o que funcionava e o que não funcionava. Quando voltou, trouxe uma proposta inovadora para a época: uma academia em frente à praia que unia CrossFit e o universo das lutas.
Era um conceito novo. Um espaço pensado não apenas para treinar, mas para criar experiência.
Talvez ali já estivesse o primeiro indício de algo que se tornaria marca registrada da sua trajetória: Santiago sempre teve um olhar profundamente visual.
Foi essa visão que o levou ao próximo movimento. Após perceber lacunas no mercado, decidiu abrir sua própria agência. E algum tempo depois, como todo bom maestro que começa a reconhecer o potencial da própria orquestra, mergulhou de vez no universo dos eventos.
Foi assim que nasceu o Nosso.
O espetáculo que nasceu de uma conversa
No início, o projeto era pequeno. Quase discreto. Havia planos ambiciosos, claro, mas nada que antecipasse a dimensão que aquilo alcançaria.
Mas como toda grande composição, o crescimento veio movimento por movimento.
Santiago costuma dizer que o sucesso do Nosso vai muito além dos sócios ou ex-sócios. Ele atribui grande parte dessa construção à equipe que se formou ao redor do projeto. Uma equipe que, segundo ele, funciona como uma verdadeira família.
E talvez seja exatamente isso que faz um espetáculo acontecer.
Mas nem toda grande história é feita apenas de aplausos.
Nos bastidores, houve desafios. Trabalhar com entretenimento significa lidar diariamente com o imprevisível. Pressão, decisões rápidas e criatividade constante fazem parte da rotina.
E, nos primeiros anos, os números não foram gentis.
Santiago conta que, logo no início, o projeto enfrentou um prejuízo significativo. No primeiro ano, a perda chegou perto de quatro milhões de reais. Era o tipo de momento que faz qualquer empreendedor parar e se perguntar se está no caminho certo.
Mas algumas visões são grandes demais para serem abandonadas.
Hoje, o Nosso se tornou muito mais do que um evento. É uma verdadeira plataforma de comunicação. Durante o Carnaval, cerca de quatro mil pessoas passam pelo espaço diariamente, além da enorme repercussão online que acompanha cada edição.
Dentro da Sapucaí, onde a música ecoa madrugada adentro, também se fazem negócios.
E talvez esse seja o segredo do projeto: ele entende que entretenimento e conexão caminham juntos.
Curiosamente, tudo começou quase como uma conversa entre amigos.
Em 2016, Gabriel David convidou Santiago para abrir um camarote na Sapucaí. No começo, eram apenas os dois. Um projeto simples, quase experimental.
Mas foi durante o desfile das campeãs que uma frase mudaria tudo.
Santiago virou para Gabriel e disse: “A gente vai abrir o nosso camarote.”
Sem perceber, ele acabava de batizar o projeto.
Nosso.
O nome ficou. E com ele, a ideia de pertencimento que se tornaria uma das bases do negócio.
Mas, para alguém apaixonado por criar experiências, a Sapucaí começou a parecer apenas o começo.
Santiago queria mais.

O homem transforma eventos em comunidade
Seu olhar começou a se voltar para outros grandes eventos: Fórmula 1, estádios, experiências ao vivo. A visão sempre foi a mesma: criar comunidade.
Porque eventos passam. Mas comunidades permanecem.
Foi essa mesma determinação que o levou, por exemplo, a trazer Ne-Yo para o Brasil. Uma iniciativa que misturou ousadia, estratégia e aquela teimosia tão brasileira de quem acredita que, quando quer, faz acontecer.
Quando se juntam amor pelo que se faz, trabalho constante e uma boa dose de coragem, o impossível começa a parecer apenas uma questão de tempo.
E talvez por isso Santiago também seja, acima de tudo, um estrategista.

Nosso na f1 de Miami
Miami nunca foi apenas um destino. É um encontro de culturas, ritmos, pessoas e talvez por isso tenha sido o cenário perfeito para o próximo movimento do NOSSO.
Neste mês de maio, o NOSSO aterrissou na Fórmula 1 de Miami com uma proposta clara: mais do que acesso, criar pertencimento.
Com um investimento de cerca de 2 milhões de dólares e apenas 130 convidados, o projeto levou sua essência para um dos eventos mais desejados do mundo. Sem ingressos à venda, o NOSSO se posiciona como uma plataforma de relacionamento onde hospitalidade, música e curadoria transformam encontros em experiências memoráveis.
“A gente nunca quis ser sobre volume. A gente quis ser sobre profundidade. Sobre conexão de verdade”, diz Santiago.
Porque, no fim, o verdadeiro luxo talvez esteja exatamente nisso: fazer parte de algo que não pode simplesmente ser comprado.

Empreender também é escutar silêncios
Foi dessa estratégia que nasceu a Ticky, um novo projeto que curiosamente conversa diretamente com o início de sua trajetória.
Observando o comportamento da geração Z, cada vez mais preocupada com saúde, bem-estar e escolhas alimentares, Santiago e seus sócios identificaram uma lacuna curiosa no mercado.
Produtos mais saudáveis estavam em alta.
Mas era extremamente difícil encontrar pirulitos sem açúcar.
Assim nasceu a ideia.
Porque, no fundo, empreender também é isso: perceber pequenos silêncios no mercado e transformá-los em novas melodias.

E talvez seja exatamente assim que Santiago conduz sua carreira.
Como um maestro que observa atentamente cada instrumento, cada ritmo e cada pausa.
Porque grandes espetáculos não acontecem por acaso.
Eles são conduzidos.
E, muitas vezes, quase sem que a gente perceba.
No fim das contas, Santiago vem de uma nova leva de CEOs que carrega algo raro: a capacidade de transformar visão em sentimento.
Executivos que entendem que marcas não vivem apenas de números, mas de experiências. De memória. De pertencimento.
Talvez seja por isso que sua trajetória pareça menos sobre negócios e mais sobre movimento. Sobre conectar pessoas, antecipar desejos e criar espaços onde o mundo, por alguns instantes, parece caber no mesmo ritmo.
Porque existem empresários que constroem empresas.
E existem aqueles que constroem atmosferas.
Santiago, ao que tudo indica, escolheu construir mundos.